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sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Lendo com Olhos e Ouvidos


Meus olhos e ouvidos acabam de completar um passeio que achei muitíssimo rico e interessante, sob todos os pontos de vista, por um texto longo. São mais de setecentas mil palavras de um livro sagrado. Palavras eternas.

Trata-se de minha releitura da bíblia em inglês, agora pela tradução Novo Mundo, que tem áudio e tudo, disponível online no site da Watchtower, a que já me referi neste blog (http://neo-orkuteiro-lexicografia.blogspot.com.br/2012/06/obras-de-referencia-improvisadas.html).

A nítida impressão que tenho sobre esta fonte é de que ela é lamentavelmente subutilizada por estudantes, estudiosos e curiosos do mundo inteiro, em vista do tesouro linguístico que disponibiliza. Entre as próprias testemunhas de Jeová que conheço, sinto que poderia existir bem mais interesse na utilização destes materiais para aquisição ou consolidação do conhecimento de línguas estrangeiras, conhecimento este que realmente interessa a muitos e cuja utilidade dispensa comentários.

Pois bem, venho lendo coisas em inglês há mais de quatro décadas. Como profissional de tradução desde os anos oitenta, decerto que já me exercitei bastante, também. Sem dúvida tenho os olhos bem treinados em leitura neste idioma. Em consequência disso, disponho de um bom conhecimento da estrutura da língua, de um bom vocabulário e de muitos outros etcéteras. Os dicionários desempenharam papel fundamental, principalmente na fase de aquisição de meu inglês. Cheguei a ler vários deles de capa a capa, de A a Z.

Meus ouvidos, no entanto, nem de longe desfrutam de semelhante tarimba. Nunca morei no exterior e atualmente nem sequer tenho falado inglês com ninguém em base diária. Enfim, é relativamente pouco o que faço de exercício de ‘listening’. Ouço repetidamente algumas das canções que gosto, sim, e vejo uns poucos filmes, e tomo conhecimento de umas tantas outras coisas disponibilizadas no YouTube e em outros lugares. Li recentemente com os olhos e ouvidos bem atentos The Portrait of Dorian Gray num vídeo muito interessante que descobri. Que beleza de texto, e em que inglês! O melhor é que há outros, muitos.

Confrontado com a necessidade de dar mais treinamento a minha escuta em inglês, decidi fazer uma nova incursão pelo texto bíblico, que se presta perfeitamente (e com vantagens) a tal objetivo, bem como a uma infinidade de outros. Os resultados já começaram a se insinuar. Meio timidamente ainda, mas com certeza eles me estão vindo. Aproveito aqui o ensejo pra dar-lhes as boas vindas. O fato é que quem procura, acha. Esta é uma das três conhecidíssimas promessas do cristianismo, conforme consta em Mateus, 7:7

Levei perto de dois meses escutando e lendo a bíblia online em inglês quase todos os dias. Anotei os progressos que ia fazendo nesta experiência de leitura/escuta numa planilha. A ideia era basicamente documentar a coisa, não me perder, ter noção clara do tempo de convívio com a referida obra, inspirar novas formas futuras de exploração. Enfim, ficou o registro. Mostro aqui os três primeiros capítulos, conforme o log:

1 | Genesis 1: 1 – 31|07:52 |07'52" |http://www.jw.org/en/publications/bible/genesis/1/| Friday, June 28, 2013 |2:56

2 | Genesis 2:1 – 25|05:18 13'10"|http://www.jw.org/en/publications/bible/genesis/2/|Friday, June 28, 2013 |3:15

3 | Genesis 3:1 – 24|05:39 18'49"|http://www.jw.org/en/publications/bible/genesis/3/|Friday, June 28, 2013 |3:24

A primeira informação nas linhas da planilha refere-se ao número de ordem da própria linha (correspondente ao respectivo capítulo em todo o texto bíblico).

A informação seguinte refere-se ao nome do livro (Genesis), ao número do respectivo capítulo neste livro (1:) e ao número de versos contidos neste capítulo (1 – 31).

A informação seguinte refere-se ao tempo de locução no áudio, em minutos e segundos.

A informação seguinte refere-se ao tempo total de locução, até o capítulo da respectiva linha. Fui somando tudo manualmente, mas a partir determinada altura interrompi o preenchimento desta coluna. Dever ter sido porque apesar de extremamente simples, esse exercício de aritmética acabou me cansando. Qualquer dia desses eu volto lá e termino de fazer aquelas continhas, muito provavelmente.

A informação seguinte refere-se ao endereço eletrônico da página lida e ouvida.

A última informação de cada linha refere-se ao dia e hora da minha leitura/escuta.

Assim ficou a última linha da planilha:

1189 | Revelation 22:1–21 |04:33 |--- | http://www.jw.org/en/publications/bible/revelation/22/|Wednesday, July 31, 2013 |3:26|

Agora dou por concluída esta experiência, que foi de tantos benefícios que não seria nada prático eu sequer tentar enumerar todos aqui.

Durante esta leitura/escuta, experimentei bastante ouvir o texto em inglês enquanto o acompanhava visualmente em alguma outra língua. Português, francês, italiano, espanhol e alemão, na maioria dos casos. Para cada uma destas línguas preparei também uma planilha em tudo semelhante a esta do inglês e iniciei uma leitura/escuta que ficou para concluir nas horas vagas que porventura o futuro me conceda.

É in(des)cr(it)ível! Como se aprende coisas com esse tipo de cotejo. Para profissionais que trabalham entre línguas, estudantes, professores, ou enfim qualquer pessoa que goste de línguas e se interesse por elas, não sei de nada igual.

Talvez ainda faça muita coisa mais com este corpus, essa tradução da bíblia, lida dessa vez literalmente com olhos e ouvidos. Na planilha também inseri algumas células com o próprio texto, inclusive em idiomas em que ainda não sou fluente. Ela pode ser expandida indefinidamente, e acabar se tornando uma referência e tanto para os mais diversos fins, inclusive tradutórios e lexicográficos. Vivamos e vejamos.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Um Aperitivo

Hoje compartilho aqui no blog alguma coisinha do felizmente bastante que existe de interesse especificamente lexicográfico atualmente disponível para leitura na internet.

A ideia é apenas servir um aperitivo.

A indicação de material desta natureza aqui visa a provocar um pouco desta sempre saudável curiosidade.

Um começo interessante seria a leitura, na tela mesmo, apesar da visualização incompleta, deste tratado de Francisco da Silva Borba que versa sobre "Organização de dicionários: uma introdução à lexicografia", como indica o título. Obra da década de 70, pelo que traz de informações úteis e sempre bem apresentadas, cumpre seu propósito de iniciação. Segue o link

http://books.google.com.br/books?id=Sq4DTSgzQgMC&pg=PA168&dq=uso+de+dicionarios&hl=pt-BR&sa=X&ei=_cd2T877F8TgtgeChbjoDg&ved=0CEUQ6AEwAQ#v=onepage&q=uso%20de%20dicionarios&f=false


Outra recomendação, para uma visão diacrônica da lexicografia brasileira, "Breve histórico da metalexicografia no Brasil e dos dicionários gerais brasileiros" de Herbert Andreas Welker, da Universidade de Brasília. Trabalho bem mais recente, em PDF de apenas 20 páginas pode-se passear pela história da lexicografia brasileira, apreciar uma boa análise de nossos cinco principais produtos lexicográficos e ainda ganhar algumas referências bibliográficas que expandem consideravelmente o trabalho para quem queira aprofundamento. O link é

http://www.let.unb.br/hawelker/images/stories/professores/documentos/metalex_Matraga.pdf


E pra encerrar, por hoje, um PDF atualizado e com bastante o que se ler sobre "Lexicografia pedagógica, pesquisas e perspectivas", que num só pacote traz nada menos que 16 trabalhos teóricos (em português, espanhol e inglês) em 262 páginas. Segue o link:
http://www.cilp.ufsc.br/LEXICOPED.pdf


Querendo, divirtam-se e informem-se com isto, leitores deste blog.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Lexicografia (e da boa) no YouTube

Olá, leitores do Lexicografia.

Acho que todos já perceberam que estou divulgando o blog espanhol Llave Del Mundo. Basta um clique ali do lado esquerdo, dentro da caixinha onde há palavras, e você pode entrar e explorar o que ali está contido, apreciar o tratamento que se dá às palavras, com informações de significado, etimologia, contextualização, etc. Um rico repositório de conteúdo lexicográfico em idioma espanhol, atualizado diariamente. A palavra como chave do mundo, não é interessante?

Também tenho seguido um outro blog chamado Dictionari http://diccitionari.blogspot.com.br/ que dá conta do que acontece de relevante na lexicografia catalã. Deveras interessante, informativo e motivador. Basta entender ao menos um tiquinho do idioma.

Mas minha dica lexicográfica de hoje destina-se a quem entende inglês. Descobri mais ou menos recentemente que a equipe editorial do Merriam-Webster tem uma forma muito simpática de interagir com o público.

Eles colocam lá no YouTube vídeos produzidos pela própria equipe editorial. Tais vídeos divulgam curiosidades e fatos relacionados ao trabalho das pessoas que produzem há tantas décadas este tradicional dicionário americano.

São vídeos bastante sintéticos, que raramente ultrapassam dois minutos. Um exemplo que colho agora como amostra é http://www.youtube.com/watch?v=D3sDiH3FhnY. Neste, uma editora associada fala de “palavras-fantasma”. Cita o único caso em toda a história do Webster: “Dord”, que significava ‘densidade’ segundo uma edição da década de trinta. Mas tratava-se de um engano. Esta palavra, que não figurava em nenhuma outra fonte ou documento original no domínio da física, nem no da química, nascera da indicação “D or d” que um dos consultores do Webster deixara numa ficha, ou seja, era usual abreviar-se densidade com apenas um ‘d’ que poderia ser maiúsculo ou minúsculo. O erro só foi corrigido na edição de 1947.

Há outros, muitos outros vídeos interessantes ali para quem queira ver a casa e a coisa por dentro, como em http://www.youtube.com/watch?v=5EeQEqqj-dI&feature=relmfu , onde um editor associado explica direitinho e em apenas 1 minuto e 59 segundos como é que as palavras entram no dicionário.

Os vídeos constituem em si mesmos um excelente exemplo inclusive de como praticamente qualquer coisa verbalizada pode ser de interesse lexicográfico, como todas as fontes existentes podem ser eficientemente exploradas e muito mais.

Mais do que o número (não muito expressivo, em geral) de exibições dos vídeos, algo me leva a crer que eles são bastante populares: o fato de existirem versões burlescas do “Ask the Editor”, com os mesmos cenários e atores cômicos no lugar dos editores, além de textos que parodiam os assuntos dos dicionaristas e seu modo de expô-los, em alguns casos realmente engraçados.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Obras de referência improvisadas

As obras de referência usuais já são concebidas e confeccionadas como fontes de consulta. Em qualquer biblioteca, o que você espera encontrar basicamente na seção de referência, senão dicionários e enciclopédias?

Estas são fontes de consulta imprescindíveis para um grande contingente de profissionais e estudiosos, que delas lançam mão habitual, rotineiramente.

Mas nem só as obras de referência servem como fonte de consulta freqüente. Os materiais publicados pela Watchtower Bible and Tract Society, das Testemunhas de Jeová, servem-me como fonte de consulta há décadas.

Atualmente existe a página oficial na internet, http://www.watchtower.org/ onde você pode ler artigos variados sobre atualidades e outros temas relevantes em ... 439 línguas! Não sei de nenhuma outra organização em nenhum lugar do mundo que publique nada regularmente em tantas.

Entrei lá hoje e a chamada principal dizia:

“Keep Your Children Safe!
With so many sexual predators on the prowl, parents want to know how to protect their children. These articles may help you.”

Claro, entendi direitinho. Sou versado em inglês. Li tudo e achei bem interessante. Mas foi irresistível conferir a tradução para português, coisa que faço sempre. Com um simples clique lá estava:

“Proteja seus filhos!
Com tantos predadores sexuais à espreita, os pais querem saber como proteger os filhos. Estes artigos poderão ser de ajuda.”

Aproveitei para reler os artigos, agora em vernáculo. Feito isto, mais outro clique e vi em francês:

“Protégez vos enfants !
Avec tant de prédateurs sexuels à l’affût, les parents veulent savoir comment protéger leurs enfants. Ces articles pourront les aider.”

Em seguida, alemão:

“Schützt eure Kinder!
Immer mehr Kinder geraten ins Visier von Sexualverbrechern. Wie können Eltern ihre Kinder schützen? Diese Artikel geben hilfreiche Tipps.”

Depois italiano:

“Proteggete i vostri figli
Con così tanti predatori sessuali a caccia di prede, i genitori vogliono sapere come proteggere i figli. Questi articoli possono dar loro buoni consigli.”

E espanhol:

“Padres, protejan a sus hijos
Con tantos depredadores sexuales al acecho, los padres necesitan saber cómo proteger a sus hijos. Hallará muy útiles estos artículos.”

Para um último clique escolhi a tradução sueca, mesmo não sendo versado na língua, mas lá estava:

“Skydda dina barn!
Massmedier tycks allt oftare rapportera om sexuella övergrepp mot barn. Oroade föräldrar vill veta hur de kan skydda sina barn, och de här artiklarna kan vara till hjälp.”

Fiquei só na leitura silenciosa (como as demais) da chamada. Não é nada provável que um sueco fosse entender minha leitura vocalizada, se eu tentasse fazer uma. Mas o entendimento aqui foi praticamente o mesmo da meia dúzia de experiências anteriores.

Só a chamada já daria ensejo a um bom número de comentários.

Por exemplo, o inglês “predators” se converte sucessivamente no português “predadores”, francês “prédateurs”, italiano “predatori” e espanhol “depredadores”. Só em espanhol se usa o prefixo (de-) neste caso. Prefixo, aliás, também existente nas outras línguas.

Já o inglês “on the prowl” fica respectivamente “à espreita”, “à l’affût”, “a caccia di prede” e “al acecho”. Temos sempre uma preposição, um artigo e um substantivo, exceto em italiano, onde a coisa se explicita mais com os dois jogos de uma preposição e um substantivo.

A tradução alemã se afasta do formato do original ao começar com “Immer mehr Kinder...” (Cada vez mais crianças...).

Gosto de fazer estas análises e comparações. Aprende-se bastante com este exercício. A chamada que copiei aqui tem só 26 palavras em inglês. Na íntegra do texto, claro que havia muitas outras analogias e contrastes bem interessantes.

Fora isto, há uma eterna confirmação de que as coisas sempre podem ser ditas de várias maneiras. Esta noção é essencial na hora que se vai escolher conscientemente uma. Quanto mais exemplos, mais modelos, mais critérios, tanto melhor.

Uso então estas publicações das Testemunhas de Jeová como obra de referência, já que as consulto amiúde. Também como material didático, tanto para aprender quanto para ensinar, quando se trata de pessoa (ou grupo) que ou é testemunha de Jeová, ou não faz objeções à utilização destes materiais por elas produzidos. Todas progridem quando realmente exploram esta fonte. Sei de alguns colegas tradutores que leram ou leem estes materiais ao se iniciarem em alguma nova língua, sempre com muito bons resultados, como seria mesmo de se esperar.

Hoje em dia existe a confortável opção de baixar arquivos para ler, por exemplo, a revista Awake (que vem me reforçando o conhecimento de inglês há quase trinta anos) no formato PDF e ouvi-la em formato MP3. A página é http://www.jw.org/.

Comecei a fazer isso este ano, com alguns números dela, mais para usar como material didático. Baixei também a Réveillez vous, a Erwachet, a Svegliatevi, e a Despertad. Uns poucos meses atrás, até exagerei na dose e também baixei, li e ouvi as traduções da Awake em holandês, sueco, norueguês, russo e grego, apesar da dificuldade inicial. Fiquei muito entusiasmado.

Sei que se prosseguir com esta experiência, acabarei por agregar todas estas línguas ao meu kit de ferramentas de trabalho. Só questão de tempo. Não é da noite pro dia, não. Quem seguiu por uns dois ou três anos um programa de leitura como este já se defende bem na(s) língua(s) que houver escolhido. Custa algum tempo e esforço, obviamente, mas os resultados finais falam por si mesmos. Eu mesmo sou uma prova ambulante disso que afirmo e recomendo. Melhor ainda é que basta ter acesso à internet. É tudo virtualmente sem despesa nenhuma.

Aos leitores que se dispuserem a explorar esta fonte com o fim de praticar leitura e escuta em línguas estrangeiras, todo o meu incentivo. Em tempo: não tenho religião, nem propagandeio ou combato nenhuma, que isto fique definitivamente claro. Quanto às línguas, quem quiser sinta-se à vontade para praticá-las comigo. Basta que eu tenha tempo e conheça o idioma estudado. Meu e-mail é joaoestevesalves@gmail.com.

A propósito, agora que leu esta postagem, se como eu você também não é fluente em sueco, o que você pensa que "Skydda dina barn!" quer dizer?
Viu?
Funciona, mesmo.

sábado, 10 de março de 2012

Consulta nostálgica

Consultei hoje a Wikipédia em português para aprender alguma coisa específica sobre a carambola. É uma fruta cujo sabor conheço bem e aprecio, ainda que raramente. A primeira coisa que aprendo é o nome da caramboleira: Averrhoa carambola. Muito prazer, então, dona Averrhoa.

Jamais suspeitei da etimologia, mas diz o verbete que vem do francês ‘carambole’, informação respaldada por remissão ao Aurélio. Descobri até que as primeiras caramboleiras foram aqui plantadas bem no finalzinho do período colonial: precisamente em 1817.

A carambola tem vitamina C e outras. Descubro que ela pode ser febrífuga, antiescorbútica e abrir o apetite. Uma advertência porém me espanta. Portadores de insuficiência renal devem abster-se de carambola. A desobediência pode custar a vida, ou no mínimo uma desconfortável hemodiálise de emergência.

Com isto convenço-me de que tanto eu, quanto meus pais e irmãos, e todos os demais parentes e amigos que nos frequentavam desde meados da década de cinquenta até 1978 temos rins saudáveis, pois consumíamos bastante do fruto de nossa velha caramboleira, tanto ao natural como em sucos, refrescos e doce.

Só agora fico sabendo que suco de carambola serve para tirar manchas de ferro, de tintas e para limpar metais.

Vou para a página em inglês e confirmo que neste idioma se diz carambola ou starfruit. Acho muito interessante a descrição do sabor que encontro ali, além de outras informações relacionadas com saúde e cultivo. Por exemplo, a Malásia é líder mundial da produção de carambola.

Na página em francês, encontro a caramboleira (carambolier) e seu fruto (carambole), mais informações detalhadas sobre a composição. Há inclusive uma tabela com os valores proporcionais disso e daquilo que há em 100g de carambola.

Em alemão a fruta é conhecida como Sternfrucht, Karambole ou Karambola. A descrição da caramboleira ali é bem detalhada, incluindo as dimensões usuais. A da minha infância e juventude era das bem grandes.

O verbete em italiano é simplificado. O título é Averrhoa carambola, ou o próprio nome científico da caramboleira. Traz também vaga indicação de sua origem asiática.

Em espanhol vemos que a fruta é conhecida como carambola e a árvore, carambolo. Um verbete médio, contendo somente dados essenciais. Eu esperava mais informações porque em vários paises de língua espanhola se planta a caramboleira.

As páginas da Wikipédia que abri hoje oferecem ligações externas em várias línguas, para quem queira fazer pesquisa mais aprofundada.

Com todas as objeções procedentes que se possa fazer a esta ferramenta de informação, ninguém pode negar os serviços que presta. Quanta vez, como tradutor, precisei conferir como se diz isso ou aquilo nestas e em outras línguas e achei rapidinho a informação que buscava.

Nos tempos pré-Wikipédia eu precisava quebrar a cabeça com coisas do tipo como se diz chapisco em inglês. E chuchu? E quiabo? E lagartixa? E acarajé? E tantas outras dessas coisinhas que seria demais exigir-se da memória de alguém. Os dicionários físicos bilíngües de então eram quase invariavelmente inúteis nesse tipo de aperreio lexical.

Com a Wikipédia, perdi a conta de quantas destas dúvidas minhas foram satisfatória e definitivamente resolvidas. Minha dívida com ela ultrapassa longe o exposto, mas registro aqui apenas à guisa de sugestão para quem enfrente dificuldades de mesma natureza.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Sobre os fundamentos da arte tradutória

Não se pode razoavelmente exigir do tradutor toda a bagagem teórica de um gramático, de um linguista, de um filólogo, de um lexicógrafo, etc. Tradutor é tradutor. Sua tarefa é essencialmente prática e consiste em traduzir, não em teorizar.

Não quer isto dizer que seja bom para o tradutor ignorar solene e completamente a base teórica diretamente associada a sua lida.

A profissão já conta hoje em dia com um respeitável costado teórico, inclusive publicações que tratam exclusivamente de questões tradutórias e cursos em nível superior dedicados à formação do profissional. Por mais importante que tudo isso seja, entretanto, é invariavelmente na prática que se forja o bom profissional.

Erros de tradução costumam ser muito facilmente encontráveis. É lamentável, mas eles ocorrem em tal profusão, que nem mesmo as melhores traduções estão totalmente isentas de sua presença. Quanto às traduções feitas às pressas (e ainda por cima por quem não dispõe de suficiente embasamento teórico para transitar entre línguas e culturas e redigir aceitavelmente pelo menos numa), os erros são, infelizmente, bem mais gritantes e corriqueiros do que seria desejável.

Pois bem, os erros de tradução até podem, em casos extremos, resultar em ponte que cai, navio que afunda, sentença desfavorável, fortuna que se perde, paciente que morre ou qualquer coisa congênere. De costume, no entanto, eles não chegam a ter consequências tão desastrosas. Fora o fato de divertir quem deles toma conhecimento, ao que parece eles não servem para praticamente mais nada. O que é uma pena. Kant em sua ‘Crítica da Razão Prática’ ensina: “...a nossa ignorância nos prestaria mais serviço na ampliação do nosso conhecimento do que todas as meditações”. Tenho a consolidada impressão de que todos nós aprendemos incomparavelmente menos do que poderíamos com tal abundância de mancadas.

Não trabalham de uma forma que deponha a seu favor os tradutores que se confundem insistentemente com os chamados falsos cognatos (traduzindo, por exemplo, ‘actually’ como ‘atualmente’, ‘spectacles’ como ‘espetáculos’, ‘ultimate’ como ‘último’ e assim por diante), ou que erram repetidamente em questões banais de concordância ou de regência, amiúde por conta da literalidade, ou que ignoram as implicações dos registros formal e informal, ou que cometem o tempo inteiro ‘pecados’ dessa ordem.

A negligência com esse tipo de coisas leva a suspeitar de um despreparo e insuficiência de conhecimentos propedêuticos justamente sobre o material do próprio trabalho.

Vale longe a pena o esforço de aprender bem pelo menos os rudimentos de morfologia e de sintaxe das línguas de serviço. É uma necessidade imperiosa, cujo desatendimento pode (e costuma) comprometer a qualidade do trabalho, e consequentemente a reputação do profissional.

Obras de referência quer físicas, quer virtuais, vêm sendo subutilizadas por tradutores (e outros profissionais que delas se servem), tanto porque lhes falte uma série de informações prévias (normalmente contidas na própria obra) como por conta de suas próprias deficiências perceptivas. No fim das contas, o tradutor se serve frequentemente de várias ferramentas, algumas bastante sofisticadas, que oferecem muito mais do que, na prática, ele logra extrair delas. Certos detalhes, se devidamente considerados, podem fazer um diferença decisiva em tradução, principalmente quando existe o tempo para se atentar a eles e o suficiente conhecimento de causa.

Ninguém pode sair dirigindo um automóvel antes de aprender a dirigir porque é perigoso. Ninguém pode usar legalmente um bisturi sem saber direitinho pra que serve e como se usa. Já de cumprir certos requisitos para consultar dicionários com máximo proveito, parece que pouca gente faz questão. Talvez aí mesmo esteja a causa de tantos problemas com a qualidade geral das traduções.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Recife, com ou sem artigo?

Ao visitar recentemente o blog Pátria Amada, de minha amiga Laís Castro, tomei conhecimento da polêmica existente em torno do uso ou omissão do artigo definido com o nome da capital pernambucana.

Alguns, entre os quais Gilberto Freire, defendem que deve-se dizer 'o Recife', com artigo definido, e não simplesmente 'Recife'. Contudo, ao que parece, o uso de 'Recife' sem artigo é bastante significativo. Há quem reconheça inclusive certas sutilezas do tipo 'Recife' (sem artigo) para toda a região metropolitana e 'o Recife' apenas para a parte mais prestigiosa, ou turisticamente relevante desta.

Procurei verificar com meus próprios olhos, que a terra ainda há de co... epa, que digo eu?

Pois bem, servi-me do Google para analisar a questão, ainda que mui superficialmente. Quis saber o que é mais usado de fato. Pelo menos na Internet, o artigo definido aparece ou é omitido interessantemente.

Minha pesquisa levou só uns poucos minutos, faz uns poucos minutos. O que descobri foi o seguinte:

a) Existe preferência pelo uso do artigo definido. Prova disso é que encontrei nada menos que:

18 900 000 ocorrências para ‘até o Recife’, contra 18 700 000 para ‘até Recife’;
9 910 000 ocorrências para ‘desde o Recife’ contra 9 890 000 para ‘desde Recife’;
35 700 000 ocorrências para ‘no Recife’ contra 32 300 000 para ‘em Recife’
5 020 000 ocorrências para ‘instalados no Recife’ contra 1 820 000 para ‘instalados em Recife’;
634 000 ocorrências para ‘residindo no Recife’ contra 633 000 para ‘residindo em Recife’;
53 000 000 ocorrências para ‘sobre o Recife’ contra 24 400 000 para ‘sobre Recife’

b) Existe também preferência pela omissão do artigo definido. Prova disso é que encontrei nada menos que:

45 500 000 ocorrências para 'a Recife' contra 25 300 000 para 'ao Recife';
45 700 000 ocorrências para 'com Recife' contra 39 900 000 para 'com o Recife';
46 600 000 ocorrências para 'de Recife' contra 42 300 000 para 'do Recife';
3 030 000 ocorrências para 'moradores de Recife' contra 3 020 000 para 'moradores do Recife';
34 600 000 ocorrências para 'para Recife' contra 32 000 000 para 'para o Recife';
30 100 000 ocorrências para 'por Recife' contra 20 000 000 para 'pelo Recife';

c) Finalmente, existe um espantoso equilíbrio entre uso e omissão do artigo. Prova disso é que encontrei:

19 300 000 ocorrências para ‘cidade do Recife’ contra 19 300 000 para ‘cidade de Recife’;
20 700 000 ocorrências para ‘entre o Recife e...’ contra 20 700 000 para ‘entre Recife e...’;
1 810 000 ocorrências para ‘habitantes de Recife’ contra 1 810 000 para ‘habitantes do Recife’;
6 140 000 ocorrências para ‘população de Recife’ contra 6 140 000 para ‘população do Recife’;
3 030 000 ocorrências para ‘visitar o Recife’ contra 3 030 000 para ‘visitar Recife’

Impressionante. Estou de queixo caído. As vantagens que o Google revela tanto para o emprego como para a dispensa do artigo só em raros casos são nítidas, expressivas.

Não pesquisei as incidências diretas de 'Recife' e 'o Recife' porque não haveria contraste aí. A segunda busca mostraria forçosamente apenas um óbvio subconjunto da primeira.

Mesmo sem resultados que permitam alguma conclusão definitiva, foi prazerosa a busca.