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quinta-feira, 12 de julho de 2012

Lexicografia (e da boa) no YouTube

Olá, leitores do Lexicografia.

Acho que todos já perceberam que estou divulgando o blog espanhol Llave Del Mundo. Basta um clique ali do lado esquerdo, dentro da caixinha onde há palavras, e você pode entrar e explorar o que ali está contido, apreciar o tratamento que se dá às palavras, com informações de significado, etimologia, contextualização, etc. Um rico repositório de conteúdo lexicográfico em idioma espanhol, atualizado diariamente. A palavra como chave do mundo, não é interessante?

Também tenho seguido um outro blog chamado Dictionari http://diccitionari.blogspot.com.br/ que dá conta do que acontece de relevante na lexicografia catalã. Deveras interessante, informativo e motivador. Basta entender ao menos um tiquinho do idioma.

Mas minha dica lexicográfica de hoje destina-se a quem entende inglês. Descobri mais ou menos recentemente que a equipe editorial do Merriam-Webster tem uma forma muito simpática de interagir com o público.

Eles colocam lá no YouTube vídeos produzidos pela própria equipe editorial. Tais vídeos divulgam curiosidades e fatos relacionados ao trabalho das pessoas que produzem há tantas décadas este tradicional dicionário americano.

São vídeos bastante sintéticos, que raramente ultrapassam dois minutos. Um exemplo que colho agora como amostra é http://www.youtube.com/watch?v=D3sDiH3FhnY. Neste, uma editora associada fala de “palavras-fantasma”. Cita o único caso em toda a história do Webster: “Dord”, que significava ‘densidade’ segundo uma edição da década de trinta. Mas tratava-se de um engano. Esta palavra, que não figurava em nenhuma outra fonte ou documento original no domínio da física, nem no da química, nascera da indicação “D or d” que um dos consultores do Webster deixara numa ficha, ou seja, era usual abreviar-se densidade com apenas um ‘d’ que poderia ser maiúsculo ou minúsculo. O erro só foi corrigido na edição de 1947.

Há outros, muitos outros vídeos interessantes ali para quem queira ver a casa e a coisa por dentro, como em http://www.youtube.com/watch?v=5EeQEqqj-dI&feature=relmfu , onde um editor associado explica direitinho e em apenas 1 minuto e 59 segundos como é que as palavras entram no dicionário.

Os vídeos constituem em si mesmos um excelente exemplo inclusive de como praticamente qualquer coisa verbalizada pode ser de interesse lexicográfico, como todas as fontes existentes podem ser eficientemente exploradas e muito mais.

Mais do que o número (não muito expressivo, em geral) de exibições dos vídeos, algo me leva a crer que eles são bastante populares: o fato de existirem versões burlescas do “Ask the Editor”, com os mesmos cenários e atores cômicos no lugar dos editores, além de textos que parodiam os assuntos dos dicionaristas e seu modo de expô-los, em alguns casos realmente engraçados.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Obras de referência improvisadas

As obras de referência usuais já são concebidas e confeccionadas como fontes de consulta. Em qualquer biblioteca, o que você espera encontrar basicamente na seção de referência, senão dicionários e enciclopédias?

Estas são fontes de consulta imprescindíveis para um grande contingente de profissionais e estudiosos, que delas lançam mão habitual, rotineiramente.

Mas nem só as obras de referência servem como fonte de consulta freqüente. Os materiais publicados pela Watchtower Bible and Tract Society, das Testemunhas de Jeová, servem-me como fonte de consulta há décadas.

Atualmente existe a página oficial na internet, http://www.watchtower.org/ onde você pode ler artigos variados sobre atualidades e outros temas relevantes em ... 439 línguas! Não sei de nenhuma outra organização em nenhum lugar do mundo que publique nada regularmente em tantas.

Entrei lá hoje e a chamada principal dizia:

“Keep Your Children Safe!
With so many sexual predators on the prowl, parents want to know how to protect their children. These articles may help you.”

Claro, entendi direitinho. Sou versado em inglês. Li tudo e achei bem interessante. Mas foi irresistível conferir a tradução para português, coisa que faço sempre. Com um simples clique lá estava:

“Proteja seus filhos!
Com tantos predadores sexuais à espreita, os pais querem saber como proteger os filhos. Estes artigos poderão ser de ajuda.”

Aproveitei para reler os artigos, agora em vernáculo. Feito isto, mais outro clique e vi em francês:

“Protégez vos enfants !
Avec tant de prédateurs sexuels à l’affût, les parents veulent savoir comment protéger leurs enfants. Ces articles pourront les aider.”

Em seguida, alemão:

“Schützt eure Kinder!
Immer mehr Kinder geraten ins Visier von Sexualverbrechern. Wie können Eltern ihre Kinder schützen? Diese Artikel geben hilfreiche Tipps.”

Depois italiano:

“Proteggete i vostri figli
Con così tanti predatori sessuali a caccia di prede, i genitori vogliono sapere come proteggere i figli. Questi articoli possono dar loro buoni consigli.”

E espanhol:

“Padres, protejan a sus hijos
Con tantos depredadores sexuales al acecho, los padres necesitan saber cómo proteger a sus hijos. Hallará muy útiles estos artículos.”

Para um último clique escolhi a tradução sueca, mesmo não sendo versado na língua, mas lá estava:

“Skydda dina barn!
Massmedier tycks allt oftare rapportera om sexuella övergrepp mot barn. Oroade föräldrar vill veta hur de kan skydda sina barn, och de här artiklarna kan vara till hjälp.”

Fiquei só na leitura silenciosa (como as demais) da chamada. Não é nada provável que um sueco fosse entender minha leitura vocalizada, se eu tentasse fazer uma. Mas o entendimento aqui foi praticamente o mesmo da meia dúzia de experiências anteriores.

Só a chamada já daria ensejo a um bom número de comentários.

Por exemplo, o inglês “predators” se converte sucessivamente no português “predadores”, francês “prédateurs”, italiano “predatori” e espanhol “depredadores”. Só em espanhol se usa o prefixo (de-) neste caso. Prefixo, aliás, também existente nas outras línguas.

Já o inglês “on the prowl” fica respectivamente “à espreita”, “à l’affût”, “a caccia di prede” e “al acecho”. Temos sempre uma preposição, um artigo e um substantivo, exceto em italiano, onde a coisa se explicita mais com os dois jogos de uma preposição e um substantivo.

A tradução alemã se afasta do formato do original ao começar com “Immer mehr Kinder...” (Cada vez mais crianças...).

Gosto de fazer estas análises e comparações. Aprende-se bastante com este exercício. A chamada que copiei aqui tem só 26 palavras em inglês. Na íntegra do texto, claro que havia muitas outras analogias e contrastes bem interessantes.

Fora isto, há uma eterna confirmação de que as coisas sempre podem ser ditas de várias maneiras. Esta noção é essencial na hora que se vai escolher conscientemente uma. Quanto mais exemplos, mais modelos, mais critérios, tanto melhor.

Uso então estas publicações das Testemunhas de Jeová como obra de referência, já que as consulto amiúde. Também como material didático, tanto para aprender quanto para ensinar, quando se trata de pessoa (ou grupo) que ou é testemunha de Jeová, ou não faz objeções à utilização destes materiais por elas produzidos. Todas progridem quando realmente exploram esta fonte. Sei de alguns colegas tradutores que leram ou leem estes materiais ao se iniciarem em alguma nova língua, sempre com muito bons resultados, como seria mesmo de se esperar.

Hoje em dia existe a confortável opção de baixar arquivos para ler, por exemplo, a revista Awake (que vem me reforçando o conhecimento de inglês há quase trinta anos) no formato PDF e ouvi-la em formato MP3. A página é http://www.jw.org/.

Comecei a fazer isso este ano, com alguns números dela, mais para usar como material didático. Baixei também a Réveillez vous, a Erwachet, a Svegliatevi, e a Despertad. Uns poucos meses atrás, até exagerei na dose e também baixei, li e ouvi as traduções da Awake em holandês, sueco, norueguês, russo e grego, apesar da dificuldade inicial. Fiquei muito entusiasmado.

Sei que se prosseguir com esta experiência, acabarei por agregar todas estas línguas ao meu kit de ferramentas de trabalho. Só questão de tempo. Não é da noite pro dia, não. Quem seguiu por uns dois ou três anos um programa de leitura como este já se defende bem na(s) língua(s) que houver escolhido. Custa algum tempo e esforço, obviamente, mas os resultados finais falam por si mesmos. Eu mesmo sou uma prova ambulante disso que afirmo e recomendo. Melhor ainda é que basta ter acesso à internet. É tudo virtualmente sem despesa nenhuma.

Aos leitores que se dispuserem a explorar esta fonte com o fim de praticar leitura e escuta em línguas estrangeiras, todo o meu incentivo. Em tempo: não tenho religião, nem propagandeio ou combato nenhuma, que isto fique definitivamente claro. Quanto às línguas, quem quiser sinta-se à vontade para praticá-las comigo. Basta que eu tenha tempo e conheça o idioma estudado. Meu e-mail é joaoestevesalves@gmail.com.

A propósito, agora que leu esta postagem, se como eu você também não é fluente em sueco, o que você pensa que "Skydda dina barn!" quer dizer?
Viu?
Funciona, mesmo.

sábado, 10 de março de 2012

Consulta nostálgica

Consultei hoje a Wikipédia em português para aprender alguma coisa específica sobre a carambola. É uma fruta cujo sabor conheço bem e aprecio, ainda que raramente. A primeira coisa que aprendo é o nome da caramboleira: Averrhoa carambola. Muito prazer, então, dona Averrhoa.

Jamais suspeitei da etimologia, mas diz o verbete que vem do francês ‘carambole’, informação respaldada por remissão ao Aurélio. Descobri até que as primeiras caramboleiras foram aqui plantadas bem no finalzinho do período colonial: precisamente em 1817.

A carambola tem vitamina C e outras. Descubro que ela pode ser febrífuga, antiescorbútica e abrir o apetite. Uma advertência porém me espanta. Portadores de insuficiência renal devem abster-se de carambola. A desobediência pode custar a vida, ou no mínimo uma desconfortável hemodiálise de emergência.

Com isto convenço-me de que tanto eu, quanto meus pais e irmãos, e todos os demais parentes e amigos que nos frequentavam desde meados da década de cinquenta até 1978 temos rins saudáveis, pois consumíamos bastante do fruto de nossa velha caramboleira, tanto ao natural como em sucos, refrescos e doce.

Só agora fico sabendo que suco de carambola serve para tirar manchas de ferro, de tintas e para limpar metais.

Vou para a página em inglês e confirmo que neste idioma se diz carambola ou starfruit. Acho muito interessante a descrição do sabor que encontro ali, além de outras informações relacionadas com saúde e cultivo. Por exemplo, a Malásia é líder mundial da produção de carambola.

Na página em francês, encontro a caramboleira (carambolier) e seu fruto (carambole), mais informações detalhadas sobre a composição. Há inclusive uma tabela com os valores proporcionais disso e daquilo que há em 100g de carambola.

Em alemão a fruta é conhecida como Sternfrucht, Karambole ou Karambola. A descrição da caramboleira ali é bem detalhada, incluindo as dimensões usuais. A da minha infância e juventude era das bem grandes.

O verbete em italiano é simplificado. O título é Averrhoa carambola, ou o próprio nome científico da caramboleira. Traz também vaga indicação de sua origem asiática.

Em espanhol vemos que a fruta é conhecida como carambola e a árvore, carambolo. Um verbete médio, contendo somente dados essenciais. Eu esperava mais informações porque em vários paises de língua espanhola se planta a caramboleira.

As páginas da Wikipédia que abri hoje oferecem ligações externas em várias línguas, para quem queira fazer pesquisa mais aprofundada.

Com todas as objeções procedentes que se possa fazer a esta ferramenta de informação, ninguém pode negar os serviços que presta. Quanta vez, como tradutor, precisei conferir como se diz isso ou aquilo nestas e em outras línguas e achei rapidinho a informação que buscava.

Nos tempos pré-Wikipédia eu precisava quebrar a cabeça com coisas do tipo como se diz chapisco em inglês. E chuchu? E quiabo? E lagartixa? E acarajé? E tantas outras dessas coisinhas que seria demais exigir-se da memória de alguém. Os dicionários físicos bilíngües de então eram quase invariavelmente inúteis nesse tipo de aperreio lexical.

Com a Wikipédia, perdi a conta de quantas destas dúvidas minhas foram satisfatória e definitivamente resolvidas. Minha dívida com ela ultrapassa longe o exposto, mas registro aqui apenas à guisa de sugestão para quem enfrente dificuldades de mesma natureza.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Sobre os fundamentos da arte tradutória

Não se pode razoavelmente exigir do tradutor toda a bagagem teórica de um gramático, de um linguista, de um filólogo, de um lexicógrafo, etc. Tradutor é tradutor. Sua tarefa é essencialmente prática e consiste em traduzir, não em teorizar.

Não quer isto dizer que seja bom para o tradutor ignorar solene e completamente a base teórica diretamente associada a sua lida.

A profissão já conta hoje em dia com um respeitável costado teórico, inclusive publicações que tratam exclusivamente de questões tradutórias e cursos em nível superior dedicados à formação do profissional. Por mais importante que tudo isso seja, entretanto, é invariavelmente na prática que se forja o bom profissional.

Erros de tradução costumam ser muito facilmente encontráveis. É lamentável, mas eles ocorrem em tal profusão, que nem mesmo as melhores traduções estão totalmente isentas de sua presença. Quanto às traduções feitas às pressas (e ainda por cima por quem não dispõe de suficiente embasamento teórico para transitar entre línguas e culturas e redigir aceitavelmente pelo menos numa), os erros são, infelizmente, bem mais gritantes e corriqueiros do que seria desejável.

Pois bem, os erros de tradução até podem, em casos extremos, resultar em ponte que cai, navio que afunda, sentença desfavorável, fortuna que se perde, paciente que morre ou qualquer coisa congênere. De costume, no entanto, eles não chegam a ter consequências tão desastrosas. Fora o fato de divertir quem deles toma conhecimento, ao que parece eles não servem para praticamente mais nada. O que é uma pena. Kant em sua ‘Crítica da Razão Prática’ ensina: “...a nossa ignorância nos prestaria mais serviço na ampliação do nosso conhecimento do que todas as meditações”. Tenho a consolidada impressão de que todos nós aprendemos incomparavelmente menos do que poderíamos com tal abundância de mancadas.

Não trabalham de uma forma que deponha a seu favor os tradutores que se confundem insistentemente com os chamados falsos cognatos (traduzindo, por exemplo, ‘actually’ como ‘atualmente’, ‘spectacles’ como ‘espetáculos’, ‘ultimate’ como ‘último’ e assim por diante), ou que erram repetidamente em questões banais de concordância ou de regência, amiúde por conta da literalidade, ou que ignoram as implicações dos registros formal e informal, ou que cometem o tempo inteiro ‘pecados’ dessa ordem.

A negligência com esse tipo de coisas leva a suspeitar de um despreparo e insuficiência de conhecimentos propedêuticos justamente sobre o material do próprio trabalho.

Vale longe a pena o esforço de aprender bem pelo menos os rudimentos de morfologia e de sintaxe das línguas de serviço. É uma necessidade imperiosa, cujo desatendimento pode (e costuma) comprometer a qualidade do trabalho, e consequentemente a reputação do profissional.

Obras de referência quer físicas, quer virtuais, vêm sendo subutilizadas por tradutores (e outros profissionais que delas se servem), tanto porque lhes falte uma série de informações prévias (normalmente contidas na própria obra) como por conta de suas próprias deficiências perceptivas. No fim das contas, o tradutor se serve frequentemente de várias ferramentas, algumas bastante sofisticadas, que oferecem muito mais do que, na prática, ele logra extrair delas. Certos detalhes, se devidamente considerados, podem fazer um diferença decisiva em tradução, principalmente quando existe o tempo para se atentar a eles e o suficiente conhecimento de causa.

Ninguém pode sair dirigindo um automóvel antes de aprender a dirigir porque é perigoso. Ninguém pode usar legalmente um bisturi sem saber direitinho pra que serve e como se usa. Já de cumprir certos requisitos para consultar dicionários com máximo proveito, parece que pouca gente faz questão. Talvez aí mesmo esteja a causa de tantos problemas com a qualidade geral das traduções.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Recife, com ou sem artigo?

Ao visitar recentemente o blog Pátria Amada, de minha amiga Laís Castro, tomei conhecimento da polêmica existente em torno do uso ou omissão do artigo definido com o nome da capital pernambucana.

Alguns, entre os quais Gilberto Freire, defendem que deve-se dizer 'o Recife', com artigo definido, e não simplesmente 'Recife'. Contudo, ao que parece, o uso de 'Recife' sem artigo é bastante significativo. Há quem reconheça inclusive certas sutilezas do tipo 'Recife' (sem artigo) para toda a região metropolitana e 'o Recife' apenas para a parte mais prestigiosa, ou turisticamente relevante desta.

Procurei verificar com meus próprios olhos, que a terra ainda há de co... epa, que digo eu?

Pois bem, servi-me do Google para analisar a questão, ainda que mui superficialmente. Quis saber o que é mais usado de fato. Pelo menos na Internet, o artigo definido aparece ou é omitido interessantemente.

Minha pesquisa levou só uns poucos minutos, faz uns poucos minutos. O que descobri foi o seguinte:

a) Existe preferência pelo uso do artigo definido. Prova disso é que encontrei nada menos que:

18 900 000 ocorrências para ‘até o Recife’, contra 18 700 000 para ‘até Recife’;
9 910 000 ocorrências para ‘desde o Recife’ contra 9 890 000 para ‘desde Recife’;
35 700 000 ocorrências para ‘no Recife’ contra 32 300 000 para ‘em Recife’
5 020 000 ocorrências para ‘instalados no Recife’ contra 1 820 000 para ‘instalados em Recife’;
634 000 ocorrências para ‘residindo no Recife’ contra 633 000 para ‘residindo em Recife’;
53 000 000 ocorrências para ‘sobre o Recife’ contra 24 400 000 para ‘sobre Recife’

b) Existe também preferência pela omissão do artigo definido. Prova disso é que encontrei nada menos que:

45 500 000 ocorrências para 'a Recife' contra 25 300 000 para 'ao Recife';
45 700 000 ocorrências para 'com Recife' contra 39 900 000 para 'com o Recife';
46 600 000 ocorrências para 'de Recife' contra 42 300 000 para 'do Recife';
3 030 000 ocorrências para 'moradores de Recife' contra 3 020 000 para 'moradores do Recife';
34 600 000 ocorrências para 'para Recife' contra 32 000 000 para 'para o Recife';
30 100 000 ocorrências para 'por Recife' contra 20 000 000 para 'pelo Recife';

c) Finalmente, existe um espantoso equilíbrio entre uso e omissão do artigo. Prova disso é que encontrei:

19 300 000 ocorrências para ‘cidade do Recife’ contra 19 300 000 para ‘cidade de Recife’;
20 700 000 ocorrências para ‘entre o Recife e...’ contra 20 700 000 para ‘entre Recife e...’;
1 810 000 ocorrências para ‘habitantes de Recife’ contra 1 810 000 para ‘habitantes do Recife’;
6 140 000 ocorrências para ‘população de Recife’ contra 6 140 000 para ‘população do Recife’;
3 030 000 ocorrências para ‘visitar o Recife’ contra 3 030 000 para ‘visitar Recife’

Impressionante. Estou de queixo caído. As vantagens que o Google revela tanto para o emprego como para a dispensa do artigo só em raros casos são nítidas, expressivas.

Não pesquisei as incidências diretas de 'Recife' e 'o Recife' porque não haveria contraste aí. A segunda busca mostraria forçosamente apenas um óbvio subconjunto da primeira.

Mesmo sem resultados que permitam alguma conclusão definitiva, foi prazerosa a busca.

terça-feira, 15 de março de 2011

Iniciação

Venho sugerindo há décadas um exercício extremamente simples e eficiente, que eu mesmo pratico com regularidade (e em diversas línguas), para "manter a forma".

Consiste ele simplesmente em classificar todas as palavras de algum texto relativamente curto, de preferência impresso. Serve aí qualquer coisa, como um artigo de revista, uma página de jornal, um capítulo de qualquer livro da Bíblia, e por aí vai...

Com as palavras à vista, fazer como segue, à guisa de exemplo:

As armas e os barões assinalados (artigo definido, feminino, plural)

As armas e os barões assinalados (substantivo feminino, plural)

As armas e os barões assinalados (conjunção aditiva)

As armas e os barões assinalados (artigo definido, masculino, plural)

As armas e os barões assinalados (substantivo masculino, plural)

As armas e os barões assinalados (adjetivo masculino, plural)

e assim vai.

Dependendo da capacidade intelectual da pessoa, simplifico a sugestão até o ponto de dela solicitar apenas o reconhecimento e classificação dos substantivos (não sem antes uma breve preleção sobre o que é um substantivo, quais são seus principais marcadores, etcétera e tal) com indicação de gênero e número, ou então dos verbos (idem, idem), com a respectiva pessoa, tempo e modo.

Entre aqueles a quem indiquei mais recentemente este salutar exercício estão meus filhos, um dos meus sobrinhos, um dos meus irmãos (por solicitação dele), mais uns poucos parentes, colegas e amigos mais chegados.

Pra não falar nos incontáveis alunos que tive em décadas a fio de prática docente.

Minha recomendação foi sempre praticá-lo como um workout, indefinidamente, ou pelo menos até que os benefícios em termos da pretendida automatização da análise morfológica das palavras sejam apreciáveis.

Nunca tive qualquer notícia de progressos de parte alguma. Ao que parece, ao invés de fazer do exercício de classificação de palavras um hábito, os que pelo menos chegaram a experimentá-lo acabaram, todos, abandonando-o antes que os resultados tivessem alguma chance se apresentar. Os motivos pessoais vão desde a mais sufocante falta de tempo até uma lamentável preguiça mental associada a um altíssimo nível de ... desinteresse.

Agora, fico só imaginando como é que seria se todos os meus aconselhados tivessem arrumado algum tempinho que fosse, ou reunido a quantidade necessária de força de vontade (convenhamos, nem era tanta assim) e com isto proporcionado a si mesmos estas ferramentas mínimas com as quais trabalhar palavras.

A história teria sido bem outra, não resta a menor dúvida.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Rimas para Jesus

As canções gospel não são só produtos fonográficos. São hinos de louvor, também. Sua eficácia como tal só Deus mesmo, para bem avaliar.

Agora, na qualidade de simples produtos fonográficos, asseguro: da grande maioria das que tenho ouvido (as mais das vezes involuntariamente), francamente não gostei, mesmo. Poucos são os compositores que põem em seus trabalhos o mesmo cuidado que põe um Sérgio Lopes. Este declarou ter ficado um ano inteiro com uma canção inacabada por conta de uma única palavra. Tal zelo se reflete em seus trabalhos, sempre bons, mas trata-se infelizmente de um caso bastante atípico, no gênero.

A questão da rima para Jesus não passa de uma questiúncula somenos. Pode ser que eu esteja ficando ranzinza. Mas esse negócio de Jesus rimar bobamente com 'cruz' ou 'luz', confesso que tenho achado um tanto quanto irritante.

Bastaria consultar um dicionário para o compositor ou poeta enriquecer consideravelmente o leque de possibilidades de rimas neste caso específico (ou em qualquer outro, de passagem se diga).

O repertório do Aulete Digital apresenta, para verbos terminados em “*uzir”, nada menos que os 36 seguintes:

abduzir aduzir aluzir entreduzir auriluzir coproduzir conduzir contraproduzir deduzir desluzir duzir eduzir entreluzir estreluzir induzir introduzir luciluzir luziluzir luzir noctiluzir nuzir preluzir produzir reconduzir reduzir reintroduzir reluzir reproduzir retraduzir seduzir sobreluzir teleconduzir traduzir transluzir trasluzir e tremeluzir.

Basta colocar qualquer um deles na terceira pessoa do singular do presente do indicativo, e podemos dizer sem susto que algo ou alguém respectivamente:

abduz aduz aluz entreduz auriluz coproduz conduz contraproduz deduz desluz duz eduz entreluz estreluz induz introduz luciluz luziluz luz noctiluz nuz preluz produz reconduz reduz reintroduz reluz reproduz retraduz seduz sobreluz teleconduz traduz transluz trasluz e tremeluz.

Com a busca “*por”, encontramos instantaneamente mais 44 verbos da mesma família, a saber:

antepor antrepor apor circumpor compor contrapor contrapropor decompor depor descompor desapor descompor desimpor despor dispor entrepor estrapor expor extrapor impor indispor interpor justapor opor pospor predispor propor pressupor propor recompor reimpor repor repropor redispor sobpor sobrepor sopor sotopor subpor superpor supor transpor traspor e trespor

A primeira pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo, é, respectivamente, eu:

antepus antrepus apus circumpus compus contrapus contrapropus decompus depus descompus desapus descompus desimpus despus dispus entrepus estrapus expus extrapus impus indispus interpus justapus opus pospus predispus propus pressupus propus recompus reimpus repus repropus redispus sobpus sobrepus sopus sotopus subpus superpus supus transpus traspus e trespus.

Nada menos que oitenta opções de rima para Jesus, só até aqui.

Algumas palavras terminam em “*uz”. É o caso de capuz, mastruz, truz, e vários etcéteras. Elas são invariavelmente oxítonas, e rimam com Jesus, também.

Outras, muitas outras, terminam em “*us”. Neste caso é só catar da lista as oxítonas. É fácil. Se estiverem grafadas corretamente no dicionário (nem sempre é o caso, advirta-se), elas seriam as que aparecem sem acento. Algumas, ou mesmo várias, podem servir pra rimar com Jesus.

E ainda temos todas as palavras oxítonas da língua portuguesa terminadas em “*u”. O referido dicionário que utilizei não oferece a lista por ser longa demais. Cabe então buscar e quiçá listar. Claro que só interessariam as que comportassem plural e fossem adequadas semanticamente. Ainda assim seriam, de fato, muitas.

Compor um bom verso rimando Jesus com, por exemplo, arcabuz, perus, pus (substantivo), urubus ou qualquer coisa do gênero exige um talento que eu simplesmente não tenho e por isso mesmo nunca me dispus a sequer tentar. No entanto, estou convencido de que quem desse os devidos tratos à bola conseguiria, sim.

O que quero dizer com tudo isso é que não existe a menor necessidade de rimar Jesus tão banal, previsível quase invariavelmente com 'cruz' ou 'luz'. Esta rima já está pra lá de desgastada.

Bem, a idade me vem chegando. Não é de se esperar que minha ranzinice melhore. Mas se pelo menos estas canções melhorarem...