Venho sugerindo há décadas um exercício extremamente simples e eficiente, que eu mesmo pratico com regularidade (e em diversas línguas), para "manter a forma".
Consiste ele simplesmente em classificar todas as palavras de algum texto relativamente curto, de preferência impresso. Serve aí qualquer coisa, como um artigo de revista, uma página de jornal, um capítulo de qualquer livro da Bíblia, e por aí vai...
Com as palavras à vista, fazer como segue, à guisa de exemplo:
As armas e os barões assinalados (artigo definido, feminino, plural)
As armas e os barões assinalados (substantivo feminino, plural)
As armas e os barões assinalados (conjunção aditiva)
As armas e os barões assinalados (artigo definido, masculino, plural)
As armas e os barões assinalados (substantivo masculino, plural)
As armas e os barões assinalados (adjetivo masculino, plural)
e assim vai.
Dependendo da capacidade intelectual da pessoa, simplifico a sugestão até o ponto de dela solicitar apenas o reconhecimento e classificação dos substantivos (não sem antes uma breve preleção sobre o que é um substantivo, quais são seus principais marcadores, etcétera e tal) com indicação de gênero e número, ou então dos verbos (idem, idem), com a respectiva pessoa, tempo e modo.
Entre aqueles a quem indiquei mais recentemente este salutar exercício estão meus filhos, um dos meus sobrinhos, um dos meus irmãos (por solicitação dele), mais uns poucos parentes, colegas e amigos mais chegados.
Pra não falar nos incontáveis alunos que tive em décadas a fio de prática docente.
Minha recomendação foi sempre praticá-lo como um workout, indefinidamente, ou pelo menos até que os benefícios em termos da pretendida automatização da análise morfológica das palavras sejam apreciáveis.
Nunca tive qualquer notícia de progressos de parte alguma. Ao que parece, ao invés de fazer do exercício de classificação de palavras um hábito, os que pelo menos chegaram a experimentá-lo acabaram, todos, abandonando-o antes que os resultados tivessem alguma chance se apresentar. Os motivos pessoais vão desde a mais sufocante falta de tempo até uma lamentável preguiça mental associada a um altíssimo nível de ... desinteresse.
Agora, fico só imaginando como é que seria se todos os meus aconselhados tivessem arrumado algum tempinho que fosse, ou reunido a quantidade necessária de força de vontade (convenhamos, nem era tanta assim) e com isto proporcionado a si mesmos estas ferramentas mínimas com as quais trabalhar palavras.
A história teria sido bem outra, não resta a menor dúvida.
terça-feira, 15 de março de 2011
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Rimas para Jesus
As canções gospel não são só produtos fonográficos. São hinos de louvor, também. Sua eficácia como tal só Deus mesmo, para bem avaliar.
Agora, na qualidade de simples produtos fonográficos, asseguro: da grande maioria das que tenho ouvido (as mais das vezes involuntariamente), francamente não gostei, mesmo. Poucos são os compositores que põem em seus trabalhos o mesmo cuidado que põe um Sérgio Lopes. Este declarou ter ficado um ano inteiro com uma canção inacabada por conta de uma única palavra. Tal zelo se reflete em seus trabalhos, sempre bons, mas trata-se infelizmente de um caso bastante atípico, no gênero.
A questão da rima para Jesus não passa de uma questiúncula somenos. Pode ser que eu esteja ficando ranzinza. Mas esse negócio de Jesus rimar bobamente com 'cruz' ou 'luz', confesso que tenho achado um tanto quanto irritante.
Bastaria consultar um dicionário para o compositor ou poeta enriquecer consideravelmente o leque de possibilidades de rimas neste caso específico (ou em qualquer outro, de passagem se diga).
O repertório do Aulete Digital apresenta, para verbos terminados em “*uzir”, nada menos que os 36 seguintes:
abduzir aduzir aluzir entreduzir auriluzir coproduzir conduzir contraproduzir deduzir desluzir duzir eduzir entreluzir estreluzir induzir introduzir luciluzir luziluzir luzir noctiluzir nuzir preluzir produzir reconduzir reduzir reintroduzir reluzir reproduzir retraduzir seduzir sobreluzir teleconduzir traduzir transluzir trasluzir e tremeluzir.
Basta colocar qualquer um deles na terceira pessoa do singular do presente do indicativo, e podemos dizer sem susto que algo ou alguém respectivamente:
abduz aduz aluz entreduz auriluz coproduz conduz contraproduz deduz desluz duz eduz entreluz estreluz induz introduz luciluz luziluz luz noctiluz nuz preluz produz reconduz reduz reintroduz reluz reproduz retraduz seduz sobreluz teleconduz traduz transluz trasluz e tremeluz.
Com a busca “*por”, encontramos instantaneamente mais 44 verbos da mesma família, a saber:
antepor antrepor apor circumpor compor contrapor contrapropor decompor depor descompor desapor descompor desimpor despor dispor entrepor estrapor expor extrapor impor indispor interpor justapor opor pospor predispor propor pressupor propor recompor reimpor repor repropor redispor sobpor sobrepor sopor sotopor subpor superpor supor transpor traspor e trespor
A primeira pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo, é, respectivamente, eu:
antepus antrepus apus circumpus compus contrapus contrapropus decompus depus descompus desapus descompus desimpus despus dispus entrepus estrapus expus extrapus impus indispus interpus justapus opus pospus predispus propus pressupus propus recompus reimpus repus repropus redispus sobpus sobrepus sopus sotopus subpus superpus supus transpus traspus e trespus.
Nada menos que oitenta opções de rima para Jesus, só até aqui.
Algumas palavras terminam em “*uz”. É o caso de capuz, mastruz, truz, e vários etcéteras. Elas são invariavelmente oxítonas, e rimam com Jesus, também.
Outras, muitas outras, terminam em “*us”. Neste caso é só catar da lista as oxítonas. É fácil. Se estiverem grafadas corretamente no dicionário (nem sempre é o caso, advirta-se), elas seriam as que aparecem sem acento. Algumas, ou mesmo várias, podem servir pra rimar com Jesus.
E ainda temos todas as palavras oxítonas da língua portuguesa terminadas em “*u”. O referido dicionário que utilizei não oferece a lista por ser longa demais. Cabe então buscar e quiçá listar. Claro que só interessariam as que comportassem plural e fossem adequadas semanticamente. Ainda assim seriam, de fato, muitas.
Compor um bom verso rimando Jesus com, por exemplo, arcabuz, perus, pus (substantivo), urubus ou qualquer coisa do gênero exige um talento que eu simplesmente não tenho e por isso mesmo nunca me dispus a sequer tentar. No entanto, estou convencido de que quem desse os devidos tratos à bola conseguiria, sim.
O que quero dizer com tudo isso é que não existe a menor necessidade de rimar Jesus tão banal, previsível quase invariavelmente com 'cruz' ou 'luz'. Esta rima já está pra lá de desgastada.
Bem, a idade me vem chegando. Não é de se esperar que minha ranzinice melhore. Mas se pelo menos estas canções melhorarem...
Agora, na qualidade de simples produtos fonográficos, asseguro: da grande maioria das que tenho ouvido (as mais das vezes involuntariamente), francamente não gostei, mesmo. Poucos são os compositores que põem em seus trabalhos o mesmo cuidado que põe um Sérgio Lopes. Este declarou ter ficado um ano inteiro com uma canção inacabada por conta de uma única palavra. Tal zelo se reflete em seus trabalhos, sempre bons, mas trata-se infelizmente de um caso bastante atípico, no gênero.
A questão da rima para Jesus não passa de uma questiúncula somenos. Pode ser que eu esteja ficando ranzinza. Mas esse negócio de Jesus rimar bobamente com 'cruz' ou 'luz', confesso que tenho achado um tanto quanto irritante.
Bastaria consultar um dicionário para o compositor ou poeta enriquecer consideravelmente o leque de possibilidades de rimas neste caso específico (ou em qualquer outro, de passagem se diga).
O repertório do Aulete Digital apresenta, para verbos terminados em “*uzir”, nada menos que os 36 seguintes:
abduzir aduzir aluzir entreduzir auriluzir coproduzir conduzir contraproduzir deduzir desluzir duzir eduzir entreluzir estreluzir induzir introduzir luciluzir luziluzir luzir noctiluzir nuzir preluzir produzir reconduzir reduzir reintroduzir reluzir reproduzir retraduzir seduzir sobreluzir teleconduzir traduzir transluzir trasluzir e tremeluzir.
Basta colocar qualquer um deles na terceira pessoa do singular do presente do indicativo, e podemos dizer sem susto que algo ou alguém respectivamente:
abduz aduz aluz entreduz auriluz coproduz conduz contraproduz deduz desluz duz eduz entreluz estreluz induz introduz luciluz luziluz luz noctiluz nuz preluz produz reconduz reduz reintroduz reluz reproduz retraduz seduz sobreluz teleconduz traduz transluz trasluz e tremeluz.
Com a busca “*por”, encontramos instantaneamente mais 44 verbos da mesma família, a saber:
antepor antrepor apor circumpor compor contrapor contrapropor decompor depor descompor desapor descompor desimpor despor dispor entrepor estrapor expor extrapor impor indispor interpor justapor opor pospor predispor propor pressupor propor recompor reimpor repor repropor redispor sobpor sobrepor sopor sotopor subpor superpor supor transpor traspor e trespor
A primeira pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo, é, respectivamente, eu:
antepus antrepus apus circumpus compus contrapus contrapropus decompus depus descompus desapus descompus desimpus despus dispus entrepus estrapus expus extrapus impus indispus interpus justapus opus pospus predispus propus pressupus propus recompus reimpus repus repropus redispus sobpus sobrepus sopus sotopus subpus superpus supus transpus traspus e trespus.
Nada menos que oitenta opções de rima para Jesus, só até aqui.
Algumas palavras terminam em “*uz”. É o caso de capuz, mastruz, truz, e vários etcéteras. Elas são invariavelmente oxítonas, e rimam com Jesus, também.
Outras, muitas outras, terminam em “*us”. Neste caso é só catar da lista as oxítonas. É fácil. Se estiverem grafadas corretamente no dicionário (nem sempre é o caso, advirta-se), elas seriam as que aparecem sem acento. Algumas, ou mesmo várias, podem servir pra rimar com Jesus.
E ainda temos todas as palavras oxítonas da língua portuguesa terminadas em “*u”. O referido dicionário que utilizei não oferece a lista por ser longa demais. Cabe então buscar e quiçá listar. Claro que só interessariam as que comportassem plural e fossem adequadas semanticamente. Ainda assim seriam, de fato, muitas.
Compor um bom verso rimando Jesus com, por exemplo, arcabuz, perus, pus (substantivo), urubus ou qualquer coisa do gênero exige um talento que eu simplesmente não tenho e por isso mesmo nunca me dispus a sequer tentar. No entanto, estou convencido de que quem desse os devidos tratos à bola conseguiria, sim.
O que quero dizer com tudo isso é que não existe a menor necessidade de rimar Jesus tão banal, previsível quase invariavelmente com 'cruz' ou 'luz'. Esta rima já está pra lá de desgastada.
Bem, a idade me vem chegando. Não é de se esperar que minha ranzinice melhore. Mas se pelo menos estas canções melhorarem...
quarta-feira, 30 de junho de 2010
Palavras
Nas palavras de cada língua, a alma de um povo pelo menos, o que fala esta língua.
Isto porque há línguas faladas por mais de um povo (por exemplo, o inglês, o espanhol, o nosso português e várias outras), assim como há povos falantes de mais que uma língua (por exemplo, os canadenses, os suíços e alguns outros).
Cada língua é formada de "células", por assim dizer. São suas unidades constitutivas a que chamamos palavras.
Ora, definir (ou mesmo distinguir) o que é uma palavra não é tão fácil quanto talvez pareça.
Experimente contar as palavras de um texto qualquer escrito num idioma que lhe seja completamente incompreensível. Você naturalmente contará as unidades gráficas que estiverem limitadas por espaços, como faz qualquer editor de texto eletrônico. Obterá desta forma um determinado resultado numérico, que acreditará correto. Mas dificilmente esta contagem estará correta.
Digamos que o idioma ininteligível para você fosse o alemão. Você na certa contaria como duas palavras cada verbo "trennenbar". Isto porque a parte de base de tais verbos alemães aparece antes, em geral bem antes de um característico prefixo separável, que vai geralmente lá para o final da sentença. Assim, o verbo que figura nos dicionários como "aufstellen" pode (e costuma) aparecer nos textos como "stellen ... auf". O verbo "aufmachen" como "machen ... auf". Por outro lado, o idioma alemão permite a formação de compostos longos. Pode-se dizer com um só desses "palavrões" teutônicos algo como "a maçaneta da gaveta da mesa do gabinete do ministro de estado das relações exteriores" ou qualquer esquisitice congênere. Isto naturalmente seria contado como uma palavra só, pela aparência. A contagem feita apenas pelos elementos radicais demarcadas por espaços acabaria por refletir um número completamente falso, e bem discrepante do número real de palavras.
Existem coisa de seis mil línguas no mundo, a esmagadora maioria das quais são línguas ágrafas, línguas sem sistema de escrita. Quando se trata de definir ou identificar o que é ou o que não é uma palavra, não é de se admirar que a coisa se complique até o limite do acreditável.
Vemos nos dicionários aquelas unidades chamadas verbetes ou entradas que tratam de palavras isoladas, ali definidas, explicadas e exemplificadas como o que são - palavras, mesmo. Isso nos dá a impressão falsa mas muito reforçada de que as palavras isoladas existem. Na verdade não é assim. As palavras só existem em associação umas com as outras, de acordo com muitas e bem complexas regras. Mesmo quando por acaso ou convenção utilizamos uma palavra só, há um bom número de outras a ela indissociavelmente associadas naquele determinado contexto, que simplesmente ficam subentendidas. Se por convenção ou economia dissemos apenas a palavra "fogo!", quereremos dizer algo do tipo "atire agora, abra fogo!", ou então "está havendo um incêndio!"
As palavras encerram em si um enorme tesouro, por vezes bem pouco explorado. Se averiguarmos sua formação, sua origem, suas colocações, sua evolução histórica e tantos etcéteras cabíveis, veremos facilmente como elas são ricas e quantas coisas interessantes há nelas e sobre elas para se descobrir.
Estou definitivamente convencido de que se a elas nós dedicamos suficiente atenção e carinho, elas retribuem lindamente. As palavras, essa coisa meio etérea, de certa forma nos enriquecem com uma fortuna que, embora nem sempre traduzível na "outra", a fortuna atrás da qual tantos passam a vida a correr, ao menos uma fortuna intangível que não se desvaloriza nunca, que não se perde nunca e que não há quem nos possa tomar.
Isto porque há línguas faladas por mais de um povo (por exemplo, o inglês, o espanhol, o nosso português e várias outras), assim como há povos falantes de mais que uma língua (por exemplo, os canadenses, os suíços e alguns outros).
Cada língua é formada de "células", por assim dizer. São suas unidades constitutivas a que chamamos palavras.
Ora, definir (ou mesmo distinguir) o que é uma palavra não é tão fácil quanto talvez pareça.
Experimente contar as palavras de um texto qualquer escrito num idioma que lhe seja completamente incompreensível. Você naturalmente contará as unidades gráficas que estiverem limitadas por espaços, como faz qualquer editor de texto eletrônico. Obterá desta forma um determinado resultado numérico, que acreditará correto. Mas dificilmente esta contagem estará correta.
Digamos que o idioma ininteligível para você fosse o alemão. Você na certa contaria como duas palavras cada verbo "trennenbar". Isto porque a parte de base de tais verbos alemães aparece antes, em geral bem antes de um característico prefixo separável, que vai geralmente lá para o final da sentença. Assim, o verbo que figura nos dicionários como "aufstellen" pode (e costuma) aparecer nos textos como "stellen ... auf". O verbo "aufmachen" como "machen ... auf". Por outro lado, o idioma alemão permite a formação de compostos longos. Pode-se dizer com um só desses "palavrões" teutônicos algo como "a maçaneta da gaveta da mesa do gabinete do ministro de estado das relações exteriores" ou qualquer esquisitice congênere. Isto naturalmente seria contado como uma palavra só, pela aparência. A contagem feita apenas pelos elementos radicais demarcadas por espaços acabaria por refletir um número completamente falso, e bem discrepante do número real de palavras.
Existem coisa de seis mil línguas no mundo, a esmagadora maioria das quais são línguas ágrafas, línguas sem sistema de escrita. Quando se trata de definir ou identificar o que é ou o que não é uma palavra, não é de se admirar que a coisa se complique até o limite do acreditável.
Vemos nos dicionários aquelas unidades chamadas verbetes ou entradas que tratam de palavras isoladas, ali definidas, explicadas e exemplificadas como o que são - palavras, mesmo. Isso nos dá a impressão falsa mas muito reforçada de que as palavras isoladas existem. Na verdade não é assim. As palavras só existem em associação umas com as outras, de acordo com muitas e bem complexas regras. Mesmo quando por acaso ou convenção utilizamos uma palavra só, há um bom número de outras a ela indissociavelmente associadas naquele determinado contexto, que simplesmente ficam subentendidas. Se por convenção ou economia dissemos apenas a palavra "fogo!", quereremos dizer algo do tipo "atire agora, abra fogo!", ou então "está havendo um incêndio!"
As palavras encerram em si um enorme tesouro, por vezes bem pouco explorado. Se averiguarmos sua formação, sua origem, suas colocações, sua evolução histórica e tantos etcéteras cabíveis, veremos facilmente como elas são ricas e quantas coisas interessantes há nelas e sobre elas para se descobrir.
Estou definitivamente convencido de que se a elas nós dedicamos suficiente atenção e carinho, elas retribuem lindamente. As palavras, essa coisa meio etérea, de certa forma nos enriquecem com uma fortuna que, embora nem sempre traduzível na "outra", a fortuna atrás da qual tantos passam a vida a correr, ao menos uma fortuna intangível que não se desvaloriza nunca, que não se perde nunca e que não há quem nos possa tomar.
sábado, 8 de maio de 2010
Sábado Intelectualizado
Este sábado até que foi, além de em tudo e por tudo bastante agradável, intelectualmente produtivo.
Em muito boa companhia, fiz um passeio à Biblioteca Nacional. Incidentalmente, passamos numa farmácia e também pela impermanente feira de livros da Cinelândia.
De repente, não mais que de repente, topo numa das bancas com o Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa do Mirador Internacional, que saiu do prelo em 79, faz trinta e um anos. A qualidade e a sofisticação desta obra exerceram o mais absoluto fascínio sobre o então jovem universitário que agora escreve este blog, só que naqueles idos custava dinheiro demais. Não deu e ponto. Foi com uma indescritível nostalgia que eu quis saber o preço. Como agora estava por assim dizer "a preço de banana" (o momento atual, para usar um eufemismo, financeiramente ainda não é lá dos mais confortáveis), comprei. Desatualizado em parte, sei que este dicionário, pelo que é, ainda me prestará serviços muito relevantes, bem como a alguns dos com quem convivo. Pelo menos assim espero.
Os dois volumes na hora pareciam pesar coisa de uns dez quilos. Pasavam na verdade só cinco, como mais tarde eu soube por balança. Errara longe em meu palpite, como aliás costumo, com esse tipo de coisa. Feliz da vida, finalmente os tenho, mesmo com três décadas e bico de atraso. Também, quem mandou eu ainda não ter ficado rico?
Tocamos então a pé pra BN, ali pertinho. Na seção de periódicos do andar térreo, onde também ficam as obras de referência, folheamos e lemos um pouco das maravilhas lexicográficas que ali nos aguardavam. O magistral Diccionario de Uso del Español de Maria Molíner foi a vedete da visita. Detivemo-nos em alguns de seus verbetes. Que inspiradores!
Na Internet, descobri meio que por acaso uma tese de doutoramento lusitana sobre lexicografia. Li quinze das quase quinhentas páginas em PDF e resolvi blogar um 'cadinho'. O resto não tem pressa.
Em muito boa companhia, fiz um passeio à Biblioteca Nacional. Incidentalmente, passamos numa farmácia e também pela impermanente feira de livros da Cinelândia.
De repente, não mais que de repente, topo numa das bancas com o Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa do Mirador Internacional, que saiu do prelo em 79, faz trinta e um anos. A qualidade e a sofisticação desta obra exerceram o mais absoluto fascínio sobre o então jovem universitário que agora escreve este blog, só que naqueles idos custava dinheiro demais. Não deu e ponto. Foi com uma indescritível nostalgia que eu quis saber o preço. Como agora estava por assim dizer "a preço de banana" (o momento atual, para usar um eufemismo, financeiramente ainda não é lá dos mais confortáveis), comprei. Desatualizado em parte, sei que este dicionário, pelo que é, ainda me prestará serviços muito relevantes, bem como a alguns dos com quem convivo. Pelo menos assim espero.
Os dois volumes na hora pareciam pesar coisa de uns dez quilos. Pasavam na verdade só cinco, como mais tarde eu soube por balança. Errara longe em meu palpite, como aliás costumo, com esse tipo de coisa. Feliz da vida, finalmente os tenho, mesmo com três décadas e bico de atraso. Também, quem mandou eu ainda não ter ficado rico?
Tocamos então a pé pra BN, ali pertinho. Na seção de periódicos do andar térreo, onde também ficam as obras de referência, folheamos e lemos um pouco das maravilhas lexicográficas que ali nos aguardavam. O magistral Diccionario de Uso del Español de Maria Molíner foi a vedete da visita. Detivemo-nos em alguns de seus verbetes. Que inspiradores!
Na Internet, descobri meio que por acaso uma tese de doutoramento lusitana sobre lexicografia. Li quinze das quase quinhentas páginas em PDF e resolvi blogar um 'cadinho'. O resto não tem pressa.
sexta-feira, 23 de abril de 2010
Procuras
A língua tem lá seus caprichos.
Toda e qualquer língua os tem, na verdade muitos.
Um exemplo bastante simplificado em português, só para ilustrar: A ideia adjetiva genérica de "referente a dentes", pode ser expressa, indiferentemente, como
a) dental,
b) dentário/a ou
c) de dentes.
Ora, a, b e c são equivalentes, do ponto de vista semântico. Poderiam ser intercambiáveis, na imensa maioria dos casos. Mas não o são, mesmo. O emprego de um termo ocorre com exclusão dos outros, conforme o substantivo.
Assim, com creme ou fio, por exemplo, preferimos a) dental;
com escova, dor e pasta a preferência recai sobre c) de dentes.
Já para arcada, prótese ou tratamento vamos usar b) dentário.
A coisa certamente vai bem mais longe. E se trabalharmos entre línguas, então...
Por exemplo, atenção é coisa que se presta em português, mas em francês se faz e em inglês se paga, por assim dizer ( prestar atenção = faire attention = to pay attention ).
Porque as línguas são diferentes entre si e têm cada qual seus caprichos peculiares, não há correspondência exata entre as palavras de uma língua e seus equivalentes em outra, menos ainda entre arranjos de palavras de significado correspondente.
O que faz com que uma língua caprichosamente aceite uma determinada palavra ou expressão em determinadas circunstâncias, mas rejeite outra palavra ou expressão equivalente é algo intrigante.
O mesmo se dá nas outras articulações da língua.
No nível morfológico, afixos aceitáveis para determinados radicais não o são para outros perfeitamente aptos a recebê-los. Por exemplo, -udo é um sufixo que contém a ideia de algo relativamente grande, maior do que o normal, tanto em português como em espanhol. Cabeçudo, olhudo, narigudo, barrigudo, barbudo, cabeludo, etc., são corriqueiros para nós. Mas consciençudo não é. Entretanto, em espanhol se diz tranquilamente conscienzudo.
Quem encontrar uma resposta satisfatória e definitiva, terá dado um contributo relevante simultaneamente à linguística, à lexicografia, à tradução, ao ensino de línguas, bem como a várias outras áreas do conhecimento. Mas não é fácil não. Pessoalmente, venho procurando isto há muito tempo, e só sei que nunca cheguei nem perto de encontrar.
A quem também quiser entrar nessa busca, boa sorte.
Toda e qualquer língua os tem, na verdade muitos.
Um exemplo bastante simplificado em português, só para ilustrar: A ideia adjetiva genérica de "referente a dentes", pode ser expressa, indiferentemente, como
a) dental,
b) dentário/a ou
c) de dentes.
Ora, a, b e c são equivalentes, do ponto de vista semântico. Poderiam ser intercambiáveis, na imensa maioria dos casos. Mas não o são, mesmo. O emprego de um termo ocorre com exclusão dos outros, conforme o substantivo.
Assim, com creme ou fio, por exemplo, preferimos a) dental;
com escova, dor e pasta a preferência recai sobre c) de dentes.
Já para arcada, prótese ou tratamento vamos usar b) dentário.
A coisa certamente vai bem mais longe. E se trabalharmos entre línguas, então...
Por exemplo, atenção é coisa que se presta em português, mas em francês se faz e em inglês se paga, por assim dizer ( prestar atenção = faire attention = to pay attention ).
Porque as línguas são diferentes entre si e têm cada qual seus caprichos peculiares, não há correspondência exata entre as palavras de uma língua e seus equivalentes em outra, menos ainda entre arranjos de palavras de significado correspondente.
O que faz com que uma língua caprichosamente aceite uma determinada palavra ou expressão em determinadas circunstâncias, mas rejeite outra palavra ou expressão equivalente é algo intrigante.
O mesmo se dá nas outras articulações da língua.
No nível morfológico, afixos aceitáveis para determinados radicais não o são para outros perfeitamente aptos a recebê-los. Por exemplo, -udo é um sufixo que contém a ideia de algo relativamente grande, maior do que o normal, tanto em português como em espanhol. Cabeçudo, olhudo, narigudo, barrigudo, barbudo, cabeludo, etc., são corriqueiros para nós. Mas consciençudo não é. Entretanto, em espanhol se diz tranquilamente conscienzudo.
Quem encontrar uma resposta satisfatória e definitiva, terá dado um contributo relevante simultaneamente à linguística, à lexicografia, à tradução, ao ensino de línguas, bem como a várias outras áreas do conhecimento. Mas não é fácil não. Pessoalmente, venho procurando isto há muito tempo, e só sei que nunca cheguei nem perto de encontrar.
A quem também quiser entrar nessa busca, boa sorte.
quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
Rua Cordura
Quem conhece o município de Mesquita, Baixada Fluminense, deve saber da existência duma rua chamada Cordura. Acho cordura uma palavra bonita, sonorosa. Seus significados básicos de prudência, disposição amistosa e cordialidade embelezam-na mais ainda. Tipo de palavra que em tudo e por tudo se qualificaria para entrar numa lista lexicoterápica.
Mas a gente de lá realmente não é muito de consultar dicionários. Aparentemente, desconhecem a palavra. Fazem então o que costumam fazer com palavras estranhas, insólitas ou 'difíceis', ainda que muito bonitas. Desconsiderando a inequívoca inicial C nas (poucas) placas [e onde mais o nome apareça "oficialmente" ortografado], como se se tratasse de algum erro, substituem-na automaticamente por um G, e com isso a transformam na palavra usual mais próxima. Não só dizem como também escrevem Gordura, oficiosamente. Li num ônibus: "Passa na Rua Gordura". Com G, mesmo. Rebatizaram a tal rua, na prática.
O fenômeno nada tem de raro nem local. Ao contrário, ocorre no mundo inteiro. Só para dar um exemplo em inglês, "asparagus" (aspargo, pra nós) acabou sendo também conhecido informalmente como "sparrow grass", numa óbvia facilitação a um só tempo prosódica e etimológica. É a chamada etimologia popular, criativa e criadora de um sem número de expressões como "cuspido e escarrado" (de 'esculpido em Carrara'), "mal e porcamente" (de 'mal e parcamente'), e tome de etc.
De início, considera-se qualquer forma assim transformada como incorreta, um desvio da norma, uma corruptela, algo a se evitar. Só que muita vez a nova forma se consagra, ao ponto de ganhar abonação em dicionários. Foi aliás desse jeito que se formaram, a longo prazo, todas as línguas descententes em linha direta do velho e defunto latim, como o francês, o espanhol, o italiano, nosso vernáculo etc.
Quando criança, ouvi muito a forma "bêbado" ser corrigida. O certo à época era "bêbedo". Só que neste caso a forma "correta" com o tempo foi perdendo força e a "errada" se impôs, pelo uso. Caso pra lá de corriqueiro.
Manuel Bandeira comenta o nome do rio Capibaribe. Lembra ele que um velho professor seu fazia uma questão danada da forma correta, Capiberibe, embora o povo por qualquer razão já privilegiasse disparado a outra, com a. Trata-se da mesmíssima oposição bêbado x bêbedo, com o mesmo resultado final, inclusive.
Existem leis fonéticas, muitas delas, por trás dessas transformações por que formas léxicas normalmente passam na evolução histórica de qualquer língua.
Palavras como aipim, engajar, mortadela, mendigo, e muitas outras sofrem nasalização, uma transformação de frequência bem alta (virando, no caso, aimpim, enganjar, mortandela, mendingo, etc.).
Igualmente comum é a transposição de certos encontros consonantais como os de pedra, estupro, vidro, etc. (dando preda, estrupo, vrido, etc.).
É nessa base também que, por exemplo, aviso ‘prévio’ vira aviso ‘breve’ e o ralo ‘sifonado’ vira ralo ‘sanfonado’ juntamente com grande número de casos análogos.
A formação de alguns compostos populares é muito expressiva, geralmente também humorística, como em analfaburro, apertamento, batatalhau, contrachoque, crionças, irmãe, mergulho (não parece um composto, mas o segundo componente é “bagulho”), namorido, paitrocínio, robauto, televizinho(forma dicionarizada), trêbado, tricha, urubusservar e por aí vai.
Há subversões intencionais de expressões com idêntico efeito, como em ‘um abraço e um queijo’, ‘meus parachoques pra você’, ‘suáveis prestações’, etc., etc.
Nada a lamentar, se mencionada rua ficou condenada a uma indesejável obesidade sem causa, só por conta e ao gosto do povo do lugar. Para mim, pena é que, por lá, cordura não tenha “colado”.
Mas a gente de lá realmente não é muito de consultar dicionários. Aparentemente, desconhecem a palavra. Fazem então o que costumam fazer com palavras estranhas, insólitas ou 'difíceis', ainda que muito bonitas. Desconsiderando a inequívoca inicial C nas (poucas) placas [e onde mais o nome apareça "oficialmente" ortografado], como se se tratasse de algum erro, substituem-na automaticamente por um G, e com isso a transformam na palavra usual mais próxima. Não só dizem como também escrevem Gordura, oficiosamente. Li num ônibus: "Passa na Rua Gordura". Com G, mesmo. Rebatizaram a tal rua, na prática.
O fenômeno nada tem de raro nem local. Ao contrário, ocorre no mundo inteiro. Só para dar um exemplo em inglês, "asparagus" (aspargo, pra nós) acabou sendo também conhecido informalmente como "sparrow grass", numa óbvia facilitação a um só tempo prosódica e etimológica. É a chamada etimologia popular, criativa e criadora de um sem número de expressões como "cuspido e escarrado" (de 'esculpido em Carrara'), "mal e porcamente" (de 'mal e parcamente'), e tome de etc.
De início, considera-se qualquer forma assim transformada como incorreta, um desvio da norma, uma corruptela, algo a se evitar. Só que muita vez a nova forma se consagra, ao ponto de ganhar abonação em dicionários. Foi aliás desse jeito que se formaram, a longo prazo, todas as línguas descententes em linha direta do velho e defunto latim, como o francês, o espanhol, o italiano, nosso vernáculo etc.
Quando criança, ouvi muito a forma "bêbado" ser corrigida. O certo à época era "bêbedo". Só que neste caso a forma "correta" com o tempo foi perdendo força e a "errada" se impôs, pelo uso. Caso pra lá de corriqueiro.
Manuel Bandeira comenta o nome do rio Capibaribe. Lembra ele que um velho professor seu fazia uma questão danada da forma correta, Capiberibe, embora o povo por qualquer razão já privilegiasse disparado a outra, com a. Trata-se da mesmíssima oposição bêbado x bêbedo, com o mesmo resultado final, inclusive.
Existem leis fonéticas, muitas delas, por trás dessas transformações por que formas léxicas normalmente passam na evolução histórica de qualquer língua.
Palavras como aipim, engajar, mortadela, mendigo, e muitas outras sofrem nasalização, uma transformação de frequência bem alta (virando, no caso, aimpim, enganjar, mortandela, mendingo, etc.).
Igualmente comum é a transposição de certos encontros consonantais como os de pedra, estupro, vidro, etc. (dando preda, estrupo, vrido, etc.).
É nessa base também que, por exemplo, aviso ‘prévio’ vira aviso ‘breve’ e o ralo ‘sifonado’ vira ralo ‘sanfonado’ juntamente com grande número de casos análogos.
A formação de alguns compostos populares é muito expressiva, geralmente também humorística, como em analfaburro, apertamento, batatalhau, contrachoque, crionças, irmãe, mergulho (não parece um composto, mas o segundo componente é “bagulho”), namorido, paitrocínio, robauto, televizinho(forma dicionarizada), trêbado, tricha, urubusservar e por aí vai.
Há subversões intencionais de expressões com idêntico efeito, como em ‘um abraço e um queijo’, ‘meus parachoques pra você’, ‘suáveis prestações’, etc., etc.
Nada a lamentar, se mencionada rua ficou condenada a uma indesejável obesidade sem causa, só por conta e ao gosto do povo do lugar. Para mim, pena é que, por lá, cordura não tenha “colado”.
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Um Léxico Pacificador: Boa Ideia!
Tenho uma amiga virtual mais ou menos recente que compartilhou em seu blog uma experiência pedagógica.
Chamou-me a atenção o tremendo interesse lexicográfico ali implícito. A ideia, de nobre propósito, é facilmente aplicável e tem ótimos resultados a médio e longo prazo. Entendi que o custo seja bem pequenininho, ainda mais em vista de relevantes resultados no combate à violência.
A arma? Palavras. Fiquei imaginando uma profusão de dicionários especiais cujos lemários seriam criados para produzir no utente reações não violentas.
Na década de 80, tive a oportunidade de traduzir do italiano as atas do oitavo congresso mundial de musicoterapia, que acabara então de realizar-se na Itália, por solicitação de uma editora. Acabei nem sabendo se esta tradução foi ou não publicada.
Então, a música tem suas propriedades curativas reconhecidas pela medicina, que inclusive a vem prescrevendo não é de hoje como remédio, um remédio como qualquer outro, como qualquer fármaco à disposição de quem sofre seja lá do que for.
O que é que está faltando então para que pessoas devidamente qualificadas e investidas de autoridade encarem com igual seriedade esse tremendo potencial que há nas palavras e está praticamente inaproveitado como recurso no desesperadamente necessário combate a todas as formas e manifestações da violência? Ou para que a própria experiência da Graça se multiplique por quantos dela tiverem conhecimento e a desejem reproduzir no âmbito educativo bem como em vários outros?
Quantos maridos ainda não descobriram quanta coisa pra lá de óbvia dá pra fazer com suas respectivas mulheres e que é incomparavelmente melhor em qualquer sentido inclusive pra eles mesmos do que bater nelas? Quantos filhos inclusive pequenos estão agora vivendo sob um clima de terror justamente em casa, onde se espera eles tenham amor, carinho, e proteção? E não é só a violência doméstica. Tem a urbana, que vem escalando a níveis dificilmente suportáveis para os cidadãos de boa paz. Em resumo, há violência demais por aí, sim. Todos nós sabemos muito bem disso e muitos de nós realmente queremos que assim não seja. Estamos dispostos a fazer o que for possível? A partir do momento que todos responderem sinceramente sim, isto quererá dizer em termos práticos que foi a violência que perdeu. Boa música, boa conduta, uma boa disposição, boas palavras, vale qualquer coisa desde que funcione, certo?
Se a divulgação da experiência singela e bem sucedida da minha amiga Graça puder servir de referência e inspiração para muitas mais outras iniciativas neste sentido, é de se acreditar que ainda chegaremos a resultados realmente satisfatórios em ponto graudo, algum dia. Faço então a minha parte redirecionando meus leitores ao blog Os Botões de Madrepérola. Nada custa visitar o referido blog e ler o post de que falo em
http://botoesmadreperola.blogspot.com/2009/10/nao-violencia-meu-recado-possui-um-teor.html
Quero ver as palavras cumprirem mais este destino, para o bem das gerações que nos sucederão.
Chamou-me a atenção o tremendo interesse lexicográfico ali implícito. A ideia, de nobre propósito, é facilmente aplicável e tem ótimos resultados a médio e longo prazo. Entendi que o custo seja bem pequenininho, ainda mais em vista de relevantes resultados no combate à violência.
A arma? Palavras. Fiquei imaginando uma profusão de dicionários especiais cujos lemários seriam criados para produzir no utente reações não violentas.
Na década de 80, tive a oportunidade de traduzir do italiano as atas do oitavo congresso mundial de musicoterapia, que acabara então de realizar-se na Itália, por solicitação de uma editora. Acabei nem sabendo se esta tradução foi ou não publicada.
Então, a música tem suas propriedades curativas reconhecidas pela medicina, que inclusive a vem prescrevendo não é de hoje como remédio, um remédio como qualquer outro, como qualquer fármaco à disposição de quem sofre seja lá do que for.
O que é que está faltando então para que pessoas devidamente qualificadas e investidas de autoridade encarem com igual seriedade esse tremendo potencial que há nas palavras e está praticamente inaproveitado como recurso no desesperadamente necessário combate a todas as formas e manifestações da violência? Ou para que a própria experiência da Graça se multiplique por quantos dela tiverem conhecimento e a desejem reproduzir no âmbito educativo bem como em vários outros?
Quantos maridos ainda não descobriram quanta coisa pra lá de óbvia dá pra fazer com suas respectivas mulheres e que é incomparavelmente melhor em qualquer sentido inclusive pra eles mesmos do que bater nelas? Quantos filhos inclusive pequenos estão agora vivendo sob um clima de terror justamente em casa, onde se espera eles tenham amor, carinho, e proteção? E não é só a violência doméstica. Tem a urbana, que vem escalando a níveis dificilmente suportáveis para os cidadãos de boa paz. Em resumo, há violência demais por aí, sim. Todos nós sabemos muito bem disso e muitos de nós realmente queremos que assim não seja. Estamos dispostos a fazer o que for possível? A partir do momento que todos responderem sinceramente sim, isto quererá dizer em termos práticos que foi a violência que perdeu. Boa música, boa conduta, uma boa disposição, boas palavras, vale qualquer coisa desde que funcione, certo?
Se a divulgação da experiência singela e bem sucedida da minha amiga Graça puder servir de referência e inspiração para muitas mais outras iniciativas neste sentido, é de se acreditar que ainda chegaremos a resultados realmente satisfatórios em ponto graudo, algum dia. Faço então a minha parte redirecionando meus leitores ao blog Os Botões de Madrepérola. Nada custa visitar o referido blog e ler o post de que falo em
http://botoesmadreperola.blogspot.com/2009/10/nao-violencia-meu-recado-possui-um-teor.html
Quero ver as palavras cumprirem mais este destino, para o bem das gerações que nos sucederão.
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