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sábado, 18 de abril de 2009

Coprologia à Parte

[Segue extrato do que escrevi alhures após me censurarem a palavra merda]

Para os que porventura não saibam e nem sequer desconfiem, mas queiram saber e não tenham tanta raiva (ai de mim, erudito de merda!) de quem sabe, minha impublicável palavra procede do latim. Procedência suficientemente atestada em fontes bastante seguras e confiáveis. Era originalmente “merda, merdae”, um bom substantivo feminino de primeira declinação, na língua dos romanos da antiguidade clássica. Chegou-nos pelo acusativo singular “merdam”, o que também aconteceu com a esmagadora maioria dos nossos substantivos provindos do latim. (1)


Natural que “merda, merdae” não fosse, nem sequer no latim vulgar, que dirá no latim clássico, um termo dos mais prestigiosos. Nunca o encontrei nos modelares Cícero ou Virgílio (cujas respectivas "obras", também, não cheguei a ler integralmente, muito menos atrás de “merda, merdae” logo ali, só pra poder agora, a essa altura do campeonato, oferecer-lhes qualquer garantia que seja a esse respeito), mas posso dar-lhes certeza de já ter visto “merda, merdae” em autores de grande credibilidade. Só que isso foi lá naqueles bons(?) tempos de faculdade, tempos em que eu lia latim vorazmente, a ponto de saber conjugar e declinar tudo bem direitinho, com a quela porrada de exceções e tudo, ter um puta dum vocabulário que incluía, por exemplo “matella, matellae” (2), Significa penico, coisa que saber, pode apostar uma boa aposta, não era pra quem lê pouco, não.

Em francês, indiscutivelmente uma das mais antigas e também mais cultas flores do Lácio, além de muito bela, é “merde” que se diz. Trata-se aí de um monossílabo, e este monossílabo muito curiosamente é bom, muito bom francês. Há peculiaridades deveras interessantes e "aos quilos" a comentar sobre o curioso termo francês, esse “merde”. Os franceses (que conforme bem sabemos são ótimos perfumistas há sei lá quantos séculos, que têm uma longa e mundialmente afamada tradição culinária, que praticamente ditaram a moda pro mundo inteiro por muito tempo e que conseqüentemente são com toda a justiça considerados como um povo do mais refinado e extremado bom gosto, a despeito das nada raras exceções de hoje em dia) não poderiam jamais ignorar solene e historicamente palavra tão expressiva e tão útil da língua que deu origem à sua, e por assim dizer “andar” pra ela, como puderam, quiseram e souberam fazer os imemorialmente fleumáticos ingleses.

Nem poderiam concebivelmente os franceses deixar de transformar a quase vulgar e rude “merda, merdae” dos velhos, cultos e grossos romanos em sua simpática, bem dizer prestigiosa e quase bem-cheirosa “merde”, palavra não só perfeitamente aceitável, presente em todos os bons dicionários, logo achadiça também na “obra” dos mais reputados literatos que a França já deu. Como bem se sabe, estes literatos sempre constituíram a principal fonte da maravilhosa lexicografia tradicional francesa.

Além do óbvio sentido etimo-(escato/copro)-lógico, o termo acumulou, com o tempo, diversos outros. Por exemplo, “traîner quelqu’um dans la merde” significa ridicularizar alguém. E quem melhor do que os franceses pra fazer isso? Um ser desprezível qualquer, animado ou não, é “une merde”, ou “de la merde”.

Como exclamação, “merde!” pode sugerir raiva, impaciência, desprezo, assim como uma pá de outras coisas. Trata-se, aqui, de uso bem mais expressivo, bem mais corriqueiro e bem mais aceitável que o que se deu com nosso correspondente uso de "merda", termo ante o qual (até certo ponto compreensivelmente) são muitos, entre nós, os que torcem o nariz.

Crotte” é um dos nem tão poucos sinônimos populares de “merde” em nosso correlato sentido de merda como sinônimo de bosta, caca, cocô, maomé (3)

Mas então, em francês, a palavra “merde” deu foi crias. Adjetivos como “merdeux” (feminino “merdeuse”), “merdant” (feminino “merdante”), “merdique” (adjetivo comum aos dois gêneros); os substantivos “merdier”, “emmerdement”; o verbo “merdoyer” são apenas uns poucos exemplos do que existe de derivados tirados a fórceps dessa minha memória de "merde", só para ilustrar. Tem é bem mais. Atestam todos eles, em seu conjunto, que a palavra “merde” lá na França goza de incontestável prestígio. Tal afortunada prole de derivados não é pra qualquer uma, não. Lá, como bem sabemos, tradicionalmente (inclusive até hoje, acho) se diz “Merde! Merde!” como uma forma de apreciação coletiva em espetáculos públicos, correspondente ao “Bis!, Bis!” que nós lusófonos dizemos em situação idêntica.

As palavras viajaram, pois, desde o velho e defunto latim até suas filhas relativamente jovens e todas ainda vivas através de caminhos incrivelmente complexos, é bem verdade, mas de modo algum caminhos imprevisíveis, aleatórios, por assim dizer. Tais percursos permitiram o estabelecimento de determinadas analogias, conhecidas entre os estudiosos dessas coisas como “leis fonéticas”.

Tentarei dar um exemplo do que seja isso pra meus leitores que, caso não saibam mas queiram saber (e não me detestem muito porque eu saiba), buscando um paralelo bem fácil entre nosso vernáculo e seu irmão gêmeo univitelino, o espanhol.

Muito que bem. O mesmíssimo termo original latino aqui omitido, (primeiro porque completamente desnecessário para os fins nada acadêmicos do presente post experimental, segundo porque o assunto já pode estar meio saco-enchente e cheirando a uma aula de merda (ou a merda, mesmo?) pra alguns dos meus talvez já bocejentos leitores que até aqui tiveram a generosidade de me acompanhar, e “last but not least at all” porque estou improvisando, e posso de repente não me lembrar mais ou inclusive não saber mesmo o “esperma” do termo exato em latim, o que afinal seria um quinguecongueano mico pra minha erudição, ainda que de merda) percorreu aquelas tais trilhas incrivelmente complexas mas repletas de pontos de répérage seguros, e acabou dando, por exemplo, cá no nosso luso vernáculo em “perto”, e lá no espanhol deles deu em “pierto”. O mesmíssimo latim que deu cá pra nós “sempre”, lá pra eles deu “siempre”. O mesmíssimo latim que deu cá pra nós “tempo”, lá pra eles deu “tiempo”. O mesmíssimo latim que deu cá pra nós “vento”, lá pra eles deu “viento”. O mesmíssimo latim que deu cá pra nós “medo”, lá pra eles deu “miedo”. O mesmíssimo latim que deu cá pra nós “certo, certa”, lá pra eles deu “cierto, cierta”. O mesmíssimo latim que deu cá pra nós “aberto, aberta”, lá pra eles deu “abierto, abierta”.

Conclusão (ufa!) de todos esses meus "mesmíssimos", "cás pra nós" e "lás pra eles" de merda, acima: em nosso português (de nada não, só ameaça), geralmente encontramos um “e” tônico aberto ou fechado em diversas situações nas quais paralela, previsível e sistematicamente acharemos um “ie” também tônico, só que invariavelmente fechado em espanhol, vindos por seus respectivos caminhos históricos do mesmíssimo latim original. Coisa dessas tais leis fonéticas. Portanto, o mesmíssimo latim “merdda, merdae”, que cá pra nós acabou dando em “merda”, lá pra eles já deu foi em “mierda”, o que, segundo rigorosamente as mesmas leis fonéticas, vem a dar rigorosamente na mesma merda (ou mierda, ou merde, afinal, que merda de diferença faz isso?).

O italiano então é quem jamais poderia ficar pra trás nessa história, morando geograficamente na mesma casa em forma de bota onde antes morara o seu defunto ancestral imediato. Já pensou? Nem pensar! Eles, é claro, têm lá sua indefectível “merda”, e também “merdoso”, “merrdosamente”, “merdaio” e por aí vai.

O inglês é língua de origem e evolução histórica não-latina, mas cujo léxico contém bem mais latim do que qualquer outra coisa (lexicógrafos do inglês orçam, salvo meu equívoco ou lapso de memória, entre 57% e 64% o total de raízes latinas em seus respectivos lemários). E o vocabulário escatológico/coprológico ali é, “só pra variar”, um dos mais ricos que há. Existem lá pra eles shit, crap, fiddle, dregs, droppings, dung, manure, e por aí vai, só pra citar os poucos exemplos de pronto acudidos, sem forçar muito a merda da minha memória.

Mas para a boa “merda, merdae” dos velhos romanos, que embora com diferenciados graus de reverência todas as línguas neolatinas acolheram, eles torceram mesmo o nariz, tanto assim que em inglês não há, pelo que me consta, nem a forma “merd*” nem coisa alguma de origem latina que o valha.

___________________________

(1) O caso preferido pelo idioma inglês na hora de tomar substantivos do latim para si foi quase invariavelmente o genitivo. Um caso inclusive bem mais conveniente, por apresentar uma regularidade notavelmente maior, inclusive. Mas o inglês não é filho, e o latim não lhe adentrou, apesar da superdose, através do "código genético". A história ali foi outra. É por esta razão, a da regularidade, que é o genitivo que caracteriza as declinações (genitivo em -ae para primeira, genitivo em -i para a segunda declinação, e por aí vai até o fim, ou a quinta, como prefiram). Corresponde o genitivo àquela segunda forma convencionada já faz é séculos para se apresentar os substantivos latinos. Rosa, rosae (primeira declinação); lupus, lupi (segunda declinação); “diabo-a-quatrus”, “diabo-a-quatru” (quarta de-gozação).

(2)(agora não tenho mais certeza se era com dois eles ou com um só. Deixo por enquanto como está, depois confiro, se
a) me lembrar,
b) houver motivo ou
c) houver solicitação)

(3)(com inicial minúscula, pelo amor de Alá, pois essa gíria "maomé" circulou foi assim mesmo aqui no Brasil. Posso provar que sim, se for obrigado a fazê-lo. Alá [e todos os seus legítimos heterônimos, inclusive Tupã, só por garantia] que me livre(m) e guarde(m) de repetir aqui a quase feliniana saga do poeta Salomon Rushdie, com seus Versos Satânicos e “crappy” que quase ninguém leu, parece-me, mas que todo mundo conhece e ainda lembra e muito bem, basicamente por conta de sua sei lá até que ponto justa mas garantidamente fanática condenação à morte, pelo fato de ambos [tanto o poeta quanto seus famosos versos de merda] terem tão gravemente insultado o Islã).

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Palavrões

No finalzinho da década de setenta e da famigerada ditadura militar brasileira, M. Souto Maior saiu com seu Dicionário do Palavrão e Termos Afins, obra ao que me consta sem quaisquer precedentes no país ou mesmo em língua portuguesa.

Li-a ainda fresca. Dei um rápido balanço em meu próprio vocabulário de doestos, palavras de baixo calão, termos considerados chulos, vulgarismos, plebeísmos e tudo mais nessa linha antes da leitura e descobri (boquiaberto) a até então insuspeitada pobreza do meu próprio vocabulário neste campo.

O prefácio de Gilberto Freyre foi o quanto me bastou para dissipar de uma vez por todas qualquer vestígio de suspeita sobre um possível mau gosto ou baixo nível que o título ainda pudesse suscitar.

Nem sei que fim levou meu exemplar daquela primeira edição, com dois, três mil verbetes, salvo engano, mas lembro que foi uma experiência enriquecedora.

Os verbetes nem sempre estavam tão modelarmente redigidos e as definições algumas vezes assomaram-se-me ou vagas demais ou insatisfatórias pelos mais variados motivos. Atribuo estas características técnicas principalmente à falta de apoio em qualquer tradição estabelecida, ao inevitável improviso, neste caso. Jamais à falta de competência lexicográfica do autor, um trabalhador infatigável com respeitável produção intelectual a seu crédito.

A virtude de oferecer uma profusão de abonos em obras e autores da mais variada reputação foi o ponto alto, para mim. Desconhecia completamente vários deles.

As poucas obras congêneres em língua estrangeira que conheço mais aumentam meu convencimento da oportunidade, mesmo da necessidade de mais esforços lexicográficos neste sentido. Os "excluídos", por assim dizer, de uma língua deveriam receber mais atenção da parte dos estudiosos. Não obstante, é sempre o uqe acontece com excluídos, de qualquer forma. Nunca interessam, mesmo.

domingo, 8 de março de 2009

“-ADA”, UM CASO A CONSIDERAR

Esta simples terminação "-ada" pode encerrar diversas idéias, ou significados. Examinaremos somente alguns destes significados em determinadas palavras que a levam. Assim, bastará observar de que idéias este sufixo derivacional “-ada” é portador. Só com isto já disporemos de uma página quase indefinidamente expansível.


1 ) BANANADA COCADA GOIABADA MARMELADA

Banana”, “coco”, “goiaba” e “marmelo” etc. são substantivos primitivos correspondentes a frutas que com “-ada” formam seus respectivos derivados cujo significado comum é “doce de ---”.

Vários nomes de frutas que também são comumente usadas para se fazer doces não aceitam “-ada” como sufixo derivacional. Por exemplo, “jaca”, “manga”, “jamelão”, etc. Em tais casos, usaremos a locução “doce de ---” anteposta ao nome da fruta.

Já “limão” e “laranja” são nomes de frutas que aceitam nosso sufixo, mas com estes o derivado não traz a mesma idéia de doce, para a qual recorreremos à referida locução. “Limonada” e “laranjada” são refrescos.

2) COTOVELADA CABEÇADA DENTADA JOELHADA PALMADA PERNADA TESTADA UMBIGADA


são os respectivos derivados de “cotovelo, “cabeça”, “dente”, “joelho”, “palma”, “perna”, “testa” e “umbigo”, substantivos primitivos que designam partes do corpo com que se pode golpear. Quando recebem o nosso sufixo com, formam derivados com a idéia de “golpe de ---”.

Já “ombro, “sola do pé”, “costas”, etc. também são nomes de partes do corpo com que se pode golpear, mas normalmente não aceitam a formação de derivados com “-ada” neste sentido.

3) CACETADA CHICOTADA CORONHADA FACADA PAULADA PEDRADA PUNHALADA


são os respectivos derivados de “cacete”, “coronha”, “chicote”, “faca”, “pau”, “pedra” e “punhal”, substantivos primitivos que designam objetos com que se pode golpear e aceitam o nosso sufixo com este significado. Neste sentido um jogador de futebol levou uma “microfonada” no olho, um dia desses.

Mas há nuitos substantivos primitivos que por algum motivo não aceitam a formação de derivados com “-ada” neste sentido.

4) BOIADA CACHORRADA CRIANÇADA, GAROTADA, MULHERADA, RAPAZIADA,

são os respectivos derivados de “boi”, “cachorro”, “criança”, “garoto”, “mulher” e “rapaz”, substantivos primitivos que aceitam “-ada” com idéia de coletivo, grupo.

São muitos os substantivos primitivos que por algum motivo não aceitam a formação de derivados com “-ada” neste sentido.

5) CACHORRADA CAFAJESTADA MOMADA PALHAÇADA

são os respectivos derivados de “cachorro”, “cafajeste”, “momo” e “palhaço”, substantivos primitivos que aceitam o nosso sufixo com o significado de “atitude de ---”, “comportamento de ---”.

São muitos os substantivos primitivos que por algum motivo não aceitam a formação de derivados com “-ada” neste sentido.

Observação: sufixos como “-ice” (de “burrice”, “criancice”, etc.) e “-agem” (de “sacanagem”, “molecagem”, etc.) também podem ser aplicados na formação de derivados com este mesmo sentido, caso em que são equivalentes semânticos de “-ada”.

6) BOBEADA CANTADA CAMINHADA CAPRICHADA COCHILADA DERRAPADA ESPIADA OLHADA PASSADA PENEIRADA TOPADA URINADA VACILADA

Os substantivos acima são derivados dos verbos “bobear”, “cantar”, “caminhar”, “caprichar”, “cochilar”, “derrapar”, “espiar”, “passar”, “peneirar”, “topar”, “urinar” e “vacilar”, respectivamente. Todos podem ser usados como em “dar uma –ada”. A idéia é de ação.

Observação 1: este uso do sufixo “-ada” é típico de um registro bastante informal daí existirem muitos vulgarismos corriqueiros, na maior parte dos casos referentes a funções fisiológicas ou sexuais.

Observação 2: não confundir com os adjetivos verbais que no feminino coincidentemente terminam também em “-ada” (cansada, chateada, inconformada, preocupada, etc.) que se empregam como em “Ela agora está -ada” nem com os particípios que no feminino coincidentemente terminam também em “-ada” (apreciada, estimulada, explorada, incentivada, provada, provocada, roubada, etc.) que se empregam como em “Ela foi –ada


7) CARRADA COLHERADA FORNADA PANELADA PAZADA

são os respectivos derivados de “carro, “colher”, “forno”, “panela” e “”, substantivos primitivos que aceitam o nosso sufixo e assim formam derivados com a idéia geral de “conteúdo de um(a) ---” ou “quantidade que cabe num(a) ---”. São muitos os substantivos primitivos que por algum motivo não aceitam a formação de derivados com “-ada” neste sentido.

Existe a variante “–ado” para casos como “punhado” (de “punho”) “bocado” (“boca”), com significado equivalente.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Googlando para saber frequências de uso

A experiência simples que descreverei é interessante do ponto de vista de se poder confirmar a frequência de determinadas colocações.

Com os substantivos ‘barata’, ‘mosca’, ‘piranha’ e ‘vaca’
e os adjetivos ‘braba’, ‘louca’, ‘morta’ e ‘tonta’,
armei um quadro onde todos os adjetivos determinavam todos os substantivos, dando os seguintes 20 pares de substantivos determinados:

barata braba’, ‘barata louca’, ‘barata morta’ ‘barata tonta’

‘mosca braba’, ‘mosca louca’, ‘mosca morta’ ‘mosca tonta’

‘piranha braba’, ‘piranha louca’, ‘piranha morta’ ‘piranha tonta’

‘vaca braba’, ‘vaca louca’, ‘vaca morta’ ‘vaca tonta’


No caso, todas estas colocações são perfeitamente válidas na língua portuguesa.

Eu naturalmente esperava, por experiência, que todas elas fossem encontradas.

Esperava igualmente que para cada um dos quatro substantivos houvesse um certo adjetivo que o determinasse com uma frequência de longe mais alta.

Googlei então, caso por caso, anotando os respectivos números de casos encontrados no momento. Verifiquei que minhas hipóteses eram todas boas. Os números do Google confirmavam-nas, dando disparado mais ocorrências de ‘barata tonta’, ‘mosca morta’, ‘piranha braba’ e ‘vaca louca’.

Um só par de determinado/determinante não foi encontrada nenhuma vez na hora da pesquisa:‘barata braba’. Por que cargas d'água, afinal, se "mosca braba' eu encontrei? Suponho tratar-se aqui de mera coincidência, pois as colocações ‘perdedoras’ me pareciam todas de igual implausibilidade assim, fora de um contexto, mas todas seriam perfeitamente justificáveis, dependendo do entorno em que porventura se achassem. Lembrar que 'barata', por exemplo, nem sempre se refere a um inseto, ou vaca a um bovídeo, etc.

Fica então a idéia e um modelo facilmente utilizável para incontáveis googladas semelhantes, com excelentes possibilidades se tirar conclusões bastante confiávies da aventura pela língua através dessa incrível ferramenta. Praticamente não há limite. Vários verbos e as preposições com eles mais esperadas [ansiar por, pensar em, sonhar com, etc.], vários verbos e os advérbios com eles mais esperados [apaixonar-se perdidamente, errar redondamente, acreditar piamente, etc.], e todos os etcéteras.

Breve, mais sugestões de utilização do Google como ferramenta para pesquisa em língua(s).

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Listas

Para fins lexicográficos, as palavras podem ser agrupadas em listas segundo qualquer critério.
:
Pode interessar exclusivamente, por exemplo, que elas contenham uma determinada seqüencia de letras, uma detrerminada letra numa determinada posição, sejam de uma determinada classe gramatical, contenham um determinado som ou uma determinada sequencia de sons, signifiquem uma determinada coisa, apresentem uma determinada característica (como dificuldade ortográfica, morfológica ou de pronúncia), procedam de uma determinada origem, sejam empregadas em um determinado registro (formal/informal, por exemplo), sejam usualmente empregadas numa determinada região, tenham entrado em desuso, estejam presentes num determinado corpus, enfim, vai-se longe na enumeração dos critérios possíveis.
:
Alguns dicionaristas chamam de "lemas" as palavras que serão título de verbete, e de "lemário" o conjunto dos lemas.
:
Listas de palavras podem ser feitas para uma profusão de outras finalidades práticas que não a feitura de um dicionário. Em geral a finalidade é só mnemônica, como uma lista de artigos para comprar (cada item é uma palavra ou está expresso em palavras).
:
Sobre listas há muito o que dizer. Em posts futuros virão alguns exemplos, extraídos de minhas próprias listas.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Arregaçando mangas

Já é tempo de arregaçar mangas.
Lexiocografia não é um blog de nome muito atraente, sei disso.
Sugere conteúdo acadêmico, didático, sei lá, coisa congênere.

Mas não foi para afugentar o leitorado com estas presunções que o elegi.

Aqui, direi alguma coisa de minha experiência pessoal com dicionários, aos quais sou infinitamente grato.

Por eles já aprendi bastante, ao longo das décadas, isto é certo, porém eles mesmos é que me proporcionam invariavelmente esta incrivelmente útil conscientização do quanto ainda ignoro e certamente sempre ignorarei.

Sou poliglota, e meu trabalho de tradutor dá bastante serventia a tal poliglotismo, bem mais que meu primeiro blog não-vernáculo, o Me and My English, que agora corre mundo pela blogosfera e me dá uma estranhamente boa sensação de estar sendo mundialmente ignorado, a tirar pelo número de visitas e de comentários até agora recebidos. Mas aquele lá é um blog muito jovem, ainda. Com o tempo sdaberei melhor da conveniência de continuar mantendo-o e mesmo de criar outros redigidos exclusiva ou predominantemente em línguas como o francês, o espanhol, o italiano, indo até o limite de minhas possibilidades de explessão multilíngüe.

A principal ferramenta na lenta aquisição de meu poliglotismo sempre foi o dicionário, primeiro aquel velho (ou nem tão velho) dicionário físico, de papel, depois os tantos outros em versão eletrônica e online. Leio-os por hábito desde quando me alfabetizei, há mais quatro décadas e meia.

Acho fascinante o universo das palavras. Sou pessoalmente um testemunho vivo de que maravilhas os dicionários podem fazer pelo conhecimento de alguém. Também posso dizer alguma coisa de suas limitações, suas falhas, suas possibilidades e suas impossibilidades. No Brasil o dicionário é chamado às vezes de "pai dos burros". Nesse tempo todo sempre tentei ser-lhe bom filho, sempre levando minha burrice a cada página, a cada verbete, e sempre colhendo o que ele tivesse a oferecer, como o bom pai que é.

O léxico de uma língua qualquer é praticamente inesgotável.

As coisas que existem costumam ter nome e não é possível a ninguém saber o nome de todas numa dada língua, por seu próprio número. O trabalho com tradução confronta quem o realiza com esta impossibilidade em base diária. Sempre há mais que se descobrir, aprender, incorporar ao vocabulário pessoal.

São bem raros em todo o mundo os casos de vocabulário individual que alcance as quarenta mil palavras, o normal é as pessoas saberem bem menos. Com apenas duas mil palavras de alta freqüência você já começa a ter um certo desembaraço com uma língua, seja a sua ou estrangeira, e as restantes vêm de acréscimo, com o tempo, praticamente não havendo limite.

Mas um bom vocabulário é de uma utilidade incrível. Não me refiro às hapax legomena, aquelas palavras que aparecem uma única vez em toda uma obra ou até na língua, que estas são raras demais. Refiro-me às próprias palavras usuais, mesmo. Conhecê-las em bom número, saber também sua origem, seu(s) significado(s) estabelecido(s), sua pronúncia mais recomendada, sua grafia correta, suas flexões, seus derivados, essas coisas todas geralmente é possível com simples consultas constantes a pelo menos um bom dicionário.

Você não acha interessante saber que palavras aparentemente tão diferentesw como "circuito' e "período" trazem no fundo a mesmíssima idéia respectivamente do latim e do grego? Ter noção da evolução histórica da sua língua não é conhecê-la melhor, com mais profundidade, e apoderar-se pessoalmente de novas possibilidades expressivas? Uma noção clara dos vários mecanismos de formação de palavras numa língua não é um recurso e tanto na hora de topar com palavras nunca dantes apresentadas? Ao ler os bons escritores, quanta coisa se explica por si mesma, quando se cultiva conhecimentos desse tipo! Quem lê o Cândido de Voltaire, bela obra em si, pode adivinhar-lhe intenções comunicativas na escolha de cada um dos nomes próprios deliberadamente escolhidos para o óbvio prazer de quem possa interessar-se por semelhantes questões onomásticas.

A tradição lexicográfica em língua portuguesa já é respeitável, mas muito ainda resta por fazer e nisto vai um imenso leque de opções para os que se disponham a fechar as tantas lacunas, corrigir as tantas falhas, emfim, nem para os dicionaristas da atual geração nem para os das próximas, jamais haverá de faltar trabalho.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Abertura

Este é meu novo espaço virtual para falar de lexicografia.

Tentar falar de lexicografia sempre foi para mim algo que esbarra invariavelmente com uma dificuldade aparentemente intransponível: com quem?

Os dicionários físicos são repositórios de palavras ordenadas alfabeticamente, classificadas, explicadas, exemplificadas, e com estas palavras há todo um universo de idéias associado. É bastante sobre o que se falar.

Parece-me bem comum a opinião laica de que um dicionário possa ser completo. Isto é apenas uma falácia, pois dicionários completos não só não existem como não são possíveis.

Criei uma comunidade no Orkut homônima deste blog, mas o número de pessoas que aderiram foi pequeno demais para um arregaçar de mangas.

Repeti o feito no Globo Onliners, criei lá uma comunidade lexicográfica, mas apesar de já ter um bom número de participantes, ainda não apareceram os resultados pretendidos e esperados nem numa, nem na outra.

Agora lanço este blog.

Nele o que me apetecer de divulgar sobre lexicografia estará circulando blogosfera a fora. imagino que terei leitores, que estes dialogarão comigo sobre estes assuntos através do espaço que lhes é reservado para comentar.

Configurei Lexicografia, o blog, de forma idêntica à de seus dois irmãos, o Bonde Andando e o Me and My English. Sem moderar comentários, pretendendo responder a todos no próprio espaço onde chegarem, como pós comentários ao que disserem meus eventuais comentaristas.

O diálogo é perfeitamente possível, em tese. Cumpridas as condições mínimas da existência deste blog, de sua manutenção com matérias por mim postadas e do surgimento dos comentários, estará aberto o diálogo.

Apelo para a blogosfera, então.

O blog aí está, devidamente inaugurado.


Até o próximo post.