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sábado, 15 de abril de 2017

Nem Só Palavras

Os dicionários oferecem muito mais do que aquela resposta rápida, concisa e na maioria das vezes satisfatória a alguma dúvida de emergência que nos leve a consultá-los.
Essa dúvida é, via de regra, sobre palavras. Seja sua ortografia, seja sua categoria gramatical, ou alguma peculiaridade de pronúncia, de flexão (nas palavras ditas variáveis), enfim, esse tipo de coisa. Ocasionalmente também consultamos dicionários para nos certificarmos de alguma hipótese ou curiosidade etimológica que tenhamos.
Deixamos então que nossos dicionários nos dirimam essas dúvidas, nos orientem e nos informem exatamente aquilo de que precisamos naquela determinada situação que provocou a necessidade ou despertou a mera curiosidade.
Mas hoje trago para reativar este velho blog o assunto anunciado no título.
Pois é, nem só sobre palavras podemos aprender nos dicionários.
Seus prefácios costumam ser uma valiosa fonte das mais diversas informações de natureza lexicográfica. Neles se descrevem procedimentos, mencionam critérios utilizados e muito mais.
Muita vez ao lado do corpo da obra vêm anexos de grande utilidade.
Por exemplo, no Aulete Digital, que se consulta gratuitamente online, há um anexo chamado Gramática Básica do Português Contemporâneo. O texto foi organizado por Cilene da Cunha Pereira, filha do autor da Nova Gramática da Língua Portuguesa, nosso saudoso Celso Cunha.
Este anexo é de grande serventia e pode ajudar muito a concurseiros, vestibulandos, estudantes e uma imensidão de outras pessoas. Sua redação é muito boa, até onde li.
O último capítulo trata de versificação, assunto cujo estudo tantos escritores, inclusive poetas, hoje em dia parecem negligenciar completamente.
Vale a pena conferir.
http://www.aulete.com.br/gram/cap20-01-estrutura_do_verso

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Lendo com Olhos e Ouvidos


Meus olhos e ouvidos acabam de completar um passeio que achei muitíssimo rico e interessante, sob todos os pontos de vista, por um texto longo. São mais de setecentas mil palavras de um livro sagrado. Palavras eternas.

Trata-se de minha releitura da bíblia em inglês, agora pela tradução Novo Mundo, que tem áudio e tudo, disponível online no site da Watchtower, a que já me referi neste blog (http://neo-orkuteiro-lexicografia.blogspot.com.br/2012/06/obras-de-referencia-improvisadas.html).

A nítida impressão que tenho sobre esta fonte é de que ela é lamentavelmente subutilizada por estudantes, estudiosos e curiosos do mundo inteiro, em vista do tesouro linguístico que disponibiliza. Entre as próprias testemunhas de Jeová que conheço, sinto que poderia existir bem mais interesse na utilização destes materiais para aquisição ou consolidação do conhecimento de línguas estrangeiras, conhecimento este que realmente interessa a muitos e cuja utilidade dispensa comentários.

Pois bem, venho lendo coisas em inglês há mais de quatro décadas. Como profissional de tradução desde os anos oitenta, decerto que já me exercitei bastante, também. Sem dúvida tenho os olhos bem treinados em leitura neste idioma. Em consequência disso, disponho de um bom conhecimento da estrutura da língua, de um bom vocabulário e de muitos outros etcéteras. Os dicionários desempenharam papel fundamental, principalmente na fase de aquisição de meu inglês. Cheguei a ler vários deles de capa a capa, de A a Z.

Meus ouvidos, no entanto, nem de longe desfrutam de semelhante tarimba. Nunca morei no exterior e atualmente nem sequer tenho falado inglês com ninguém em base diária. Enfim, é relativamente pouco o que faço de exercício de ‘listening’. Ouço repetidamente algumas das canções que gosto, sim, e vejo uns poucos filmes, e tomo conhecimento de umas tantas outras coisas disponibilizadas no YouTube e em outros lugares. Li recentemente com os olhos e ouvidos bem atentos The Portrait of Dorian Gray num vídeo muito interessante que descobri. Que beleza de texto, e em que inglês! O melhor é que há outros, muitos.

Confrontado com a necessidade de dar mais treinamento a minha escuta em inglês, decidi fazer uma nova incursão pelo texto bíblico, que se presta perfeitamente (e com vantagens) a tal objetivo, bem como a uma infinidade de outros. Os resultados já começaram a se insinuar. Meio timidamente ainda, mas com certeza eles me estão vindo. Aproveito aqui o ensejo pra dar-lhes as boas vindas. O fato é que quem procura, acha. Esta é uma das três conhecidíssimas promessas do cristianismo, conforme consta em Mateus, 7:7

Levei perto de dois meses escutando e lendo a bíblia online em inglês quase todos os dias. Anotei os progressos que ia fazendo nesta experiência de leitura/escuta numa planilha. A ideia era basicamente documentar a coisa, não me perder, ter noção clara do tempo de convívio com a referida obra, inspirar novas formas futuras de exploração. Enfim, ficou o registro. Mostro aqui os três primeiros capítulos, conforme o log:

1 | Genesis 1: 1 – 31|07:52 |07'52" |http://www.jw.org/en/publications/bible/genesis/1/| Friday, June 28, 2013 |2:56

2 | Genesis 2:1 – 25|05:18 13'10"|http://www.jw.org/en/publications/bible/genesis/2/|Friday, June 28, 2013 |3:15

3 | Genesis 3:1 – 24|05:39 18'49"|http://www.jw.org/en/publications/bible/genesis/3/|Friday, June 28, 2013 |3:24

A primeira informação nas linhas da planilha refere-se ao número de ordem da própria linha (correspondente ao respectivo capítulo em todo o texto bíblico).

A informação seguinte refere-se ao nome do livro (Genesis), ao número do respectivo capítulo neste livro (1:) e ao número de versos contidos neste capítulo (1 – 31).

A informação seguinte refere-se ao tempo de locução no áudio, em minutos e segundos.

A informação seguinte refere-se ao tempo total de locução, até o capítulo da respectiva linha. Fui somando tudo manualmente, mas a partir determinada altura interrompi o preenchimento desta coluna. Dever ter sido porque apesar de extremamente simples, esse exercício de aritmética acabou me cansando. Qualquer dia desses eu volto lá e termino de fazer aquelas continhas, muito provavelmente.

A informação seguinte refere-se ao endereço eletrônico da página lida e ouvida.

A última informação de cada linha refere-se ao dia e hora da minha leitura/escuta.

Assim ficou a última linha da planilha:

1189 | Revelation 22:1–21 |04:33 |--- | http://www.jw.org/en/publications/bible/revelation/22/|Wednesday, July 31, 2013 |3:26|

Agora dou por concluída esta experiência, que foi de tantos benefícios que não seria nada prático eu sequer tentar enumerar todos aqui.

Durante esta leitura/escuta, experimentei bastante ouvir o texto em inglês enquanto o acompanhava visualmente em alguma outra língua. Português, francês, italiano, espanhol e alemão, na maioria dos casos. Para cada uma destas línguas preparei também uma planilha em tudo semelhante a esta do inglês e iniciei uma leitura/escuta que ficou para concluir nas horas vagas que porventura o futuro me conceda.

É in(des)cr(it)ível! Como se aprende coisas com esse tipo de cotejo. Para profissionais que trabalham entre línguas, estudantes, professores, ou enfim qualquer pessoa que goste de línguas e se interesse por elas, não sei de nada igual.

Talvez ainda faça muita coisa mais com este corpus, essa tradução da bíblia, lida dessa vez literalmente com olhos e ouvidos. Na planilha também inseri algumas células com o próprio texto, inclusive em idiomas em que ainda não sou fluente. Ela pode ser expandida indefinidamente, e acabar se tornando uma referência e tanto para os mais diversos fins, inclusive tradutórios e lexicográficos. Vivamos e vejamos.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Um Aperitivo

Hoje compartilho aqui no blog alguma coisinha do felizmente bastante que existe de interesse especificamente lexicográfico atualmente disponível para leitura na internet.

A ideia é apenas servir um aperitivo.

A indicação de material desta natureza aqui visa a provocar um pouco desta sempre saudável curiosidade.

Um começo interessante seria a leitura, na tela mesmo, apesar da visualização incompleta, deste tratado de Francisco da Silva Borba que versa sobre "Organização de dicionários: uma introdução à lexicografia", como indica o título. Obra da década de 70, pelo que traz de informações úteis e sempre bem apresentadas, cumpre seu propósito de iniciação. Segue o link

http://books.google.com.br/books?id=Sq4DTSgzQgMC&pg=PA168&dq=uso+de+dicionarios&hl=pt-BR&sa=X&ei=_cd2T877F8TgtgeChbjoDg&ved=0CEUQ6AEwAQ#v=onepage&q=uso%20de%20dicionarios&f=false


Outra recomendação, para uma visão diacrônica da lexicografia brasileira, "Breve histórico da metalexicografia no Brasil e dos dicionários gerais brasileiros" de Herbert Andreas Welker, da Universidade de Brasília. Trabalho bem mais recente, em PDF de apenas 20 páginas pode-se passear pela história da lexicografia brasileira, apreciar uma boa análise de nossos cinco principais produtos lexicográficos e ainda ganhar algumas referências bibliográficas que expandem consideravelmente o trabalho para quem queira aprofundamento. O link é

http://www.let.unb.br/hawelker/images/stories/professores/documentos/metalex_Matraga.pdf


E pra encerrar, por hoje, um PDF atualizado e com bastante o que se ler sobre "Lexicografia pedagógica, pesquisas e perspectivas", que num só pacote traz nada menos que 16 trabalhos teóricos (em português, espanhol e inglês) em 262 páginas. Segue o link:
http://www.cilp.ufsc.br/LEXICOPED.pdf


Querendo, divirtam-se e informem-se com isto, leitores deste blog.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Lexicografia (e da boa) no YouTube

Olá, leitores do Lexicografia.

Acho que todos já perceberam que estou divulgando o blog espanhol Llave Del Mundo. Basta um clique ali do lado esquerdo, dentro da caixinha onde há palavras, e você pode entrar e explorar o que ali está contido, apreciar o tratamento que se dá às palavras, com informações de significado, etimologia, contextualização, etc. Um rico repositório de conteúdo lexicográfico em idioma espanhol, atualizado diariamente. A palavra como chave do mundo, não é interessante?

Também tenho seguido um outro blog chamado Dictionari http://diccitionari.blogspot.com.br/ que dá conta do que acontece de relevante na lexicografia catalã. Deveras interessante, informativo e motivador. Basta entender ao menos um tiquinho do idioma.

Mas minha dica lexicográfica de hoje destina-se a quem entende inglês. Descobri mais ou menos recentemente que a equipe editorial do Merriam-Webster tem uma forma muito simpática de interagir com o público.

Eles colocam lá no YouTube vídeos produzidos pela própria equipe editorial. Tais vídeos divulgam curiosidades e fatos relacionados ao trabalho das pessoas que produzem há tantas décadas este tradicional dicionário americano.

São vídeos bastante sintéticos, que raramente ultrapassam dois minutos. Um exemplo que colho agora como amostra é http://www.youtube.com/watch?v=D3sDiH3FhnY. Neste, uma editora associada fala de “palavras-fantasma”. Cita o único caso em toda a história do Webster: “Dord”, que significava ‘densidade’ segundo uma edição da década de trinta. Mas tratava-se de um engano. Esta palavra, que não figurava em nenhuma outra fonte ou documento original no domínio da física, nem no da química, nascera da indicação “D or d” que um dos consultores do Webster deixara numa ficha, ou seja, era usual abreviar-se densidade com apenas um ‘d’ que poderia ser maiúsculo ou minúsculo. O erro só foi corrigido na edição de 1947.

Há outros, muitos outros vídeos interessantes ali para quem queira ver a casa e a coisa por dentro, como em http://www.youtube.com/watch?v=5EeQEqqj-dI&feature=relmfu , onde um editor associado explica direitinho e em apenas 1 minuto e 59 segundos como é que as palavras entram no dicionário.

Os vídeos constituem em si mesmos um excelente exemplo inclusive de como praticamente qualquer coisa verbalizada pode ser de interesse lexicográfico, como todas as fontes existentes podem ser eficientemente exploradas e muito mais.

Mais do que o número (não muito expressivo, em geral) de exibições dos vídeos, algo me leva a crer que eles são bastante populares: o fato de existirem versões burlescas do “Ask the Editor”, com os mesmos cenários e atores cômicos no lugar dos editores, além de textos que parodiam os assuntos dos dicionaristas e seu modo de expô-los, em alguns casos realmente engraçados.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Obras de referência improvisadas

As obras de referência usuais já são concebidas e confeccionadas como fontes de consulta. Em qualquer biblioteca, o que você espera encontrar basicamente na seção de referência, senão dicionários e enciclopédias?

Estas são fontes de consulta imprescindíveis para um grande contingente de profissionais e estudiosos, que delas lançam mão habitual, rotineiramente.

Mas nem só as obras de referência servem como fonte de consulta freqüente. Os materiais publicados pela Watchtower Bible and Tract Society, das Testemunhas de Jeová, servem-me como fonte de consulta há décadas.

Atualmente existe a página oficial na internet, http://www.watchtower.org/ onde você pode ler artigos variados sobre atualidades e outros temas relevantes em ... 439 línguas! Não sei de nenhuma outra organização em nenhum lugar do mundo que publique nada regularmente em tantas.

Entrei lá hoje e a chamada principal dizia:

“Keep Your Children Safe!
With so many sexual predators on the prowl, parents want to know how to protect their children. These articles may help you.”

Claro, entendi direitinho. Sou versado em inglês. Li tudo e achei bem interessante. Mas foi irresistível conferir a tradução para português, coisa que faço sempre. Com um simples clique lá estava:

“Proteja seus filhos!
Com tantos predadores sexuais à espreita, os pais querem saber como proteger os filhos. Estes artigos poderão ser de ajuda.”

Aproveitei para reler os artigos, agora em vernáculo. Feito isto, mais outro clique e vi em francês:

“Protégez vos enfants !
Avec tant de prédateurs sexuels à l’affût, les parents veulent savoir comment protéger leurs enfants. Ces articles pourront les aider.”

Em seguida, alemão:

“Schützt eure Kinder!
Immer mehr Kinder geraten ins Visier von Sexualverbrechern. Wie können Eltern ihre Kinder schützen? Diese Artikel geben hilfreiche Tipps.”

Depois italiano:

“Proteggete i vostri figli
Con così tanti predatori sessuali a caccia di prede, i genitori vogliono sapere come proteggere i figli. Questi articoli possono dar loro buoni consigli.”

E espanhol:

“Padres, protejan a sus hijos
Con tantos depredadores sexuales al acecho, los padres necesitan saber cómo proteger a sus hijos. Hallará muy útiles estos artículos.”

Para um último clique escolhi a tradução sueca, mesmo não sendo versado na língua, mas lá estava:

“Skydda dina barn!
Massmedier tycks allt oftare rapportera om sexuella övergrepp mot barn. Oroade föräldrar vill veta hur de kan skydda sina barn, och de här artiklarna kan vara till hjälp.”

Fiquei só na leitura silenciosa (como as demais) da chamada. Não é nada provável que um sueco fosse entender minha leitura vocalizada, se eu tentasse fazer uma. Mas o entendimento aqui foi praticamente o mesmo da meia dúzia de experiências anteriores.

Só a chamada já daria ensejo a um bom número de comentários.

Por exemplo, o inglês “predators” se converte sucessivamente no português “predadores”, francês “prédateurs”, italiano “predatori” e espanhol “depredadores”. Só em espanhol se usa o prefixo (de-) neste caso. Prefixo, aliás, também existente nas outras línguas.

Já o inglês “on the prowl” fica respectivamente “à espreita”, “à l’affût”, “a caccia di prede” e “al acecho”. Temos sempre uma preposição, um artigo e um substantivo, exceto em italiano, onde a coisa se explicita mais com os dois jogos de uma preposição e um substantivo.

A tradução alemã se afasta do formato do original ao começar com “Immer mehr Kinder...” (Cada vez mais crianças...).

Gosto de fazer estas análises e comparações. Aprende-se bastante com este exercício. A chamada que copiei aqui tem só 26 palavras em inglês. Na íntegra do texto, claro que havia muitas outras analogias e contrastes bem interessantes.

Fora isto, há uma eterna confirmação de que as coisas sempre podem ser ditas de várias maneiras. Esta noção é essencial na hora que se vai escolher conscientemente uma. Quanto mais exemplos, mais modelos, mais critérios, tanto melhor.

Uso então estas publicações das Testemunhas de Jeová como obra de referência, já que as consulto amiúde. Também como material didático, tanto para aprender quanto para ensinar, quando se trata de pessoa (ou grupo) que ou é testemunha de Jeová, ou não faz objeções à utilização destes materiais por elas produzidos. Todas progridem quando realmente exploram esta fonte. Sei de alguns colegas tradutores que leram ou leem estes materiais ao se iniciarem em alguma nova língua, sempre com muito bons resultados, como seria mesmo de se esperar.

Hoje em dia existe a confortável opção de baixar arquivos para ler, por exemplo, a revista Awake (que vem me reforçando o conhecimento de inglês há quase trinta anos) no formato PDF e ouvi-la em formato MP3. A página é http://www.jw.org/.

Comecei a fazer isso este ano, com alguns números dela, mais para usar como material didático. Baixei também a Réveillez vous, a Erwachet, a Svegliatevi, e a Despertad. Uns poucos meses atrás, até exagerei na dose e também baixei, li e ouvi as traduções da Awake em holandês, sueco, norueguês, russo e grego, apesar da dificuldade inicial. Fiquei muito entusiasmado.

Sei que se prosseguir com esta experiência, acabarei por agregar todas estas línguas ao meu kit de ferramentas de trabalho. Só questão de tempo. Não é da noite pro dia, não. Quem seguiu por uns dois ou três anos um programa de leitura como este já se defende bem na(s) língua(s) que houver escolhido. Custa algum tempo e esforço, obviamente, mas os resultados finais falam por si mesmos. Eu mesmo sou uma prova ambulante disso que afirmo e recomendo. Melhor ainda é que basta ter acesso à internet. É tudo virtualmente sem despesa nenhuma.

Aos leitores que se dispuserem a explorar esta fonte com o fim de praticar leitura e escuta em línguas estrangeiras, todo o meu incentivo. Em tempo: não tenho religião, nem propagandeio ou combato nenhuma, que isto fique definitivamente claro. Quanto às línguas, quem quiser sinta-se à vontade para praticá-las comigo. Basta que eu tenha tempo e conheça o idioma estudado. Meu e-mail é joaoestevesalves@gmail.com.

A propósito, agora que leu esta postagem, se como eu você também não é fluente em sueco, o que você pensa que "Skydda dina barn!" quer dizer?
Viu?
Funciona, mesmo.

sábado, 10 de março de 2012

Consulta nostálgica

Consultei hoje a Wikipédia em português para aprender alguma coisa específica sobre a carambola. É uma fruta cujo sabor conheço bem e aprecio, ainda que raramente. A primeira coisa que aprendo é o nome da caramboleira: Averrhoa carambola. Muito prazer, então, dona Averrhoa.

Jamais suspeitei da etimologia, mas diz o verbete que vem do francês ‘carambole’, informação respaldada por remissão ao Aurélio. Descobri até que as primeiras caramboleiras foram aqui plantadas bem no finalzinho do período colonial: precisamente em 1817.

A carambola tem vitamina C e outras. Descubro que ela pode ser febrífuga, antiescorbútica e abrir o apetite. Uma advertência porém me espanta. Portadores de insuficiência renal devem abster-se de carambola. A desobediência pode custar a vida, ou no mínimo uma desconfortável hemodiálise de emergência.

Com isto convenço-me de que tanto eu, quanto meus pais e irmãos, e todos os demais parentes e amigos que nos frequentavam desde meados da década de cinquenta até 1978 temos rins saudáveis, pois consumíamos bastante do fruto de nossa velha caramboleira, tanto ao natural como em sucos, refrescos e doce.

Só agora fico sabendo que suco de carambola serve para tirar manchas de ferro, de tintas e para limpar metais.

Vou para a página em inglês e confirmo que neste idioma se diz carambola ou starfruit. Acho muito interessante a descrição do sabor que encontro ali, além de outras informações relacionadas com saúde e cultivo. Por exemplo, a Malásia é líder mundial da produção de carambola.

Na página em francês, encontro a caramboleira (carambolier) e seu fruto (carambole), mais informações detalhadas sobre a composição. Há inclusive uma tabela com os valores proporcionais disso e daquilo que há em 100g de carambola.

Em alemão a fruta é conhecida como Sternfrucht, Karambole ou Karambola. A descrição da caramboleira ali é bem detalhada, incluindo as dimensões usuais. A da minha infância e juventude era das bem grandes.

O verbete em italiano é simplificado. O título é Averrhoa carambola, ou o próprio nome científico da caramboleira. Traz também vaga indicação de sua origem asiática.

Em espanhol vemos que a fruta é conhecida como carambola e a árvore, carambolo. Um verbete médio, contendo somente dados essenciais. Eu esperava mais informações porque em vários paises de língua espanhola se planta a caramboleira.

As páginas da Wikipédia que abri hoje oferecem ligações externas em várias línguas, para quem queira fazer pesquisa mais aprofundada.

Com todas as objeções procedentes que se possa fazer a esta ferramenta de informação, ninguém pode negar os serviços que presta. Quanta vez, como tradutor, precisei conferir como se diz isso ou aquilo nestas e em outras línguas e achei rapidinho a informação que buscava.

Nos tempos pré-Wikipédia eu precisava quebrar a cabeça com coisas do tipo como se diz chapisco em inglês. E chuchu? E quiabo? E lagartixa? E acarajé? E tantas outras dessas coisinhas que seria demais exigir-se da memória de alguém. Os dicionários físicos bilíngües de então eram quase invariavelmente inúteis nesse tipo de aperreio lexical.

Com a Wikipédia, perdi a conta de quantas destas dúvidas minhas foram satisfatória e definitivamente resolvidas. Minha dívida com ela ultrapassa longe o exposto, mas registro aqui apenas à guisa de sugestão para quem enfrente dificuldades de mesma natureza.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Sobre os fundamentos da arte tradutória

Não se pode razoavelmente exigir do tradutor toda a bagagem teórica de um gramático, de um linguista, de um filólogo, de um lexicógrafo, etc. Tradutor é tradutor. Sua tarefa é essencialmente prática e consiste em traduzir, não em teorizar.

Não quer isto dizer que seja bom para o tradutor ignorar solene e completamente a base teórica diretamente associada a sua lida.

A profissão já conta hoje em dia com um respeitável costado teórico, inclusive publicações que tratam exclusivamente de questões tradutórias e cursos em nível superior dedicados à formação do profissional. Por mais importante que tudo isso seja, entretanto, é invariavelmente na prática que se forja o bom profissional.

Erros de tradução costumam ser muito facilmente encontráveis. É lamentável, mas eles ocorrem em tal profusão, que nem mesmo as melhores traduções estão totalmente isentas de sua presença. Quanto às traduções feitas às pressas (e ainda por cima por quem não dispõe de suficiente embasamento teórico para transitar entre línguas e culturas e redigir aceitavelmente pelo menos numa), os erros são, infelizmente, bem mais gritantes e corriqueiros do que seria desejável.

Pois bem, os erros de tradução até podem, em casos extremos, resultar em ponte que cai, navio que afunda, sentença desfavorável, fortuna que se perde, paciente que morre ou qualquer coisa congênere. De costume, no entanto, eles não chegam a ter consequências tão desastrosas. Fora o fato de divertir quem deles toma conhecimento, ao que parece eles não servem para praticamente mais nada. O que é uma pena. Kant em sua ‘Crítica da Razão Prática’ ensina: “...a nossa ignorância nos prestaria mais serviço na ampliação do nosso conhecimento do que todas as meditações”. Tenho a consolidada impressão de que todos nós aprendemos incomparavelmente menos do que poderíamos com tal abundância de mancadas.

Não trabalham de uma forma que deponha a seu favor os tradutores que se confundem insistentemente com os chamados falsos cognatos (traduzindo, por exemplo, ‘actually’ como ‘atualmente’, ‘spectacles’ como ‘espetáculos’, ‘ultimate’ como ‘último’ e assim por diante), ou que erram repetidamente em questões banais de concordância ou de regência, amiúde por conta da literalidade, ou que ignoram as implicações dos registros formal e informal, ou que cometem o tempo inteiro ‘pecados’ dessa ordem.

A negligência com esse tipo de coisas leva a suspeitar de um despreparo e insuficiência de conhecimentos propedêuticos justamente sobre o material do próprio trabalho.

Vale longe a pena o esforço de aprender bem pelo menos os rudimentos de morfologia e de sintaxe das línguas de serviço. É uma necessidade imperiosa, cujo desatendimento pode (e costuma) comprometer a qualidade do trabalho, e consequentemente a reputação do profissional.

Obras de referência quer físicas, quer virtuais, vêm sendo subutilizadas por tradutores (e outros profissionais que delas se servem), tanto porque lhes falte uma série de informações prévias (normalmente contidas na própria obra) como por conta de suas próprias deficiências perceptivas. No fim das contas, o tradutor se serve frequentemente de várias ferramentas, algumas bastante sofisticadas, que oferecem muito mais do que, na prática, ele logra extrair delas. Certos detalhes, se devidamente considerados, podem fazer um diferença decisiva em tradução, principalmente quando existe o tempo para se atentar a eles e o suficiente conhecimento de causa.

Ninguém pode sair dirigindo um automóvel antes de aprender a dirigir porque é perigoso. Ninguém pode usar legalmente um bisturi sem saber direitinho pra que serve e como se usa. Já de cumprir certos requisitos para consultar dicionários com máximo proveito, parece que pouca gente faz questão. Talvez aí mesmo esteja a causa de tantos problemas com a qualidade geral das traduções.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Recife, com ou sem artigo?

Ao visitar recentemente o blog Pátria Amada, de minha amiga Laís Castro, tomei conhecimento da polêmica existente em torno do uso ou omissão do artigo definido com o nome da capital pernambucana.

Alguns, entre os quais Gilberto Freire, defendem que deve-se dizer 'o Recife', com artigo definido, e não simplesmente 'Recife'. Contudo, ao que parece, o uso de 'Recife' sem artigo é bastante significativo. Há quem reconheça inclusive certas sutilezas do tipo 'Recife' (sem artigo) para toda a região metropolitana e 'o Recife' apenas para a parte mais prestigiosa, ou turisticamente relevante desta.

Procurei verificar com meus próprios olhos, que a terra ainda há de co... epa, que digo eu?

Pois bem, servi-me do Google para analisar a questão, ainda que mui superficialmente. Quis saber o que é mais usado de fato. Pelo menos na Internet, o artigo definido aparece ou é omitido interessantemente.

Minha pesquisa levou só uns poucos minutos, faz uns poucos minutos. O que descobri foi o seguinte:

a) Existe preferência pelo uso do artigo definido. Prova disso é que encontrei nada menos que:

18 900 000 ocorrências para ‘até o Recife’, contra 18 700 000 para ‘até Recife’;
9 910 000 ocorrências para ‘desde o Recife’ contra 9 890 000 para ‘desde Recife’;
35 700 000 ocorrências para ‘no Recife’ contra 32 300 000 para ‘em Recife’
5 020 000 ocorrências para ‘instalados no Recife’ contra 1 820 000 para ‘instalados em Recife’;
634 000 ocorrências para ‘residindo no Recife’ contra 633 000 para ‘residindo em Recife’;
53 000 000 ocorrências para ‘sobre o Recife’ contra 24 400 000 para ‘sobre Recife’

b) Existe também preferência pela omissão do artigo definido. Prova disso é que encontrei nada menos que:

45 500 000 ocorrências para 'a Recife' contra 25 300 000 para 'ao Recife';
45 700 000 ocorrências para 'com Recife' contra 39 900 000 para 'com o Recife';
46 600 000 ocorrências para 'de Recife' contra 42 300 000 para 'do Recife';
3 030 000 ocorrências para 'moradores de Recife' contra 3 020 000 para 'moradores do Recife';
34 600 000 ocorrências para 'para Recife' contra 32 000 000 para 'para o Recife';
30 100 000 ocorrências para 'por Recife' contra 20 000 000 para 'pelo Recife';

c) Finalmente, existe um espantoso equilíbrio entre uso e omissão do artigo. Prova disso é que encontrei:

19 300 000 ocorrências para ‘cidade do Recife’ contra 19 300 000 para ‘cidade de Recife’;
20 700 000 ocorrências para ‘entre o Recife e...’ contra 20 700 000 para ‘entre Recife e...’;
1 810 000 ocorrências para ‘habitantes de Recife’ contra 1 810 000 para ‘habitantes do Recife’;
6 140 000 ocorrências para ‘população de Recife’ contra 6 140 000 para ‘população do Recife’;
3 030 000 ocorrências para ‘visitar o Recife’ contra 3 030 000 para ‘visitar Recife’

Impressionante. Estou de queixo caído. As vantagens que o Google revela tanto para o emprego como para a dispensa do artigo só em raros casos são nítidas, expressivas.

Não pesquisei as incidências diretas de 'Recife' e 'o Recife' porque não haveria contraste aí. A segunda busca mostraria forçosamente apenas um óbvio subconjunto da primeira.

Mesmo sem resultados que permitam alguma conclusão definitiva, foi prazerosa a busca.

terça-feira, 15 de março de 2011

Iniciação

Venho sugerindo há décadas um exercício extremamente simples e eficiente, que eu mesmo pratico com regularidade (e em diversas línguas), para "manter a forma".

Consiste ele simplesmente em classificar todas as palavras de algum texto relativamente curto, de preferência impresso. Serve aí qualquer coisa, como um artigo de revista, uma página de jornal, um capítulo de qualquer livro da Bíblia, e por aí vai...

Com as palavras à vista, fazer como segue, à guisa de exemplo:

As armas e os barões assinalados (artigo definido, feminino, plural)

As armas e os barões assinalados (substantivo feminino, plural)

As armas e os barões assinalados (conjunção aditiva)

As armas e os barões assinalados (artigo definido, masculino, plural)

As armas e os barões assinalados (substantivo masculino, plural)

As armas e os barões assinalados (adjetivo masculino, plural)

e assim vai.

Dependendo da capacidade intelectual da pessoa, simplifico a sugestão até o ponto de dela solicitar apenas o reconhecimento e classificação dos substantivos (não sem antes uma breve preleção sobre o que é um substantivo, quais são seus principais marcadores, etcétera e tal) com indicação de gênero e número, ou então dos verbos (idem, idem), com a respectiva pessoa, tempo e modo.

Entre aqueles a quem indiquei mais recentemente este salutar exercício estão meus filhos, um dos meus sobrinhos, um dos meus irmãos (por solicitação dele), mais uns poucos parentes, colegas e amigos mais chegados.

Pra não falar nos incontáveis alunos que tive em décadas a fio de prática docente.

Minha recomendação foi sempre praticá-lo como um workout, indefinidamente, ou pelo menos até que os benefícios em termos da pretendida automatização da análise morfológica das palavras sejam apreciáveis.

Nunca tive qualquer notícia de progressos de parte alguma. Ao que parece, ao invés de fazer do exercício de classificação de palavras um hábito, os que pelo menos chegaram a experimentá-lo acabaram, todos, abandonando-o antes que os resultados tivessem alguma chance se apresentar. Os motivos pessoais vão desde a mais sufocante falta de tempo até uma lamentável preguiça mental associada a um altíssimo nível de ... desinteresse.

Agora, fico só imaginando como é que seria se todos os meus aconselhados tivessem arrumado algum tempinho que fosse, ou reunido a quantidade necessária de força de vontade (convenhamos, nem era tanta assim) e com isto proporcionado a si mesmos estas ferramentas mínimas com as quais trabalhar palavras.

A história teria sido bem outra, não resta a menor dúvida.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Rimas para Jesus

As canções gospel não são só produtos fonográficos. São hinos de louvor, também. Sua eficácia como tal só Deus mesmo, para bem avaliar.

Agora, na qualidade de simples produtos fonográficos, asseguro: da grande maioria das que tenho ouvido (as mais das vezes involuntariamente), francamente não gostei, mesmo. Poucos são os compositores que põem em seus trabalhos o mesmo cuidado que põe um Sérgio Lopes. Este declarou ter ficado um ano inteiro com uma canção inacabada por conta de uma única palavra. Tal zelo se reflete em seus trabalhos, sempre bons, mas trata-se infelizmente de um caso bastante atípico, no gênero.

A questão da rima para Jesus não passa de uma questiúncula somenos. Pode ser que eu esteja ficando ranzinza. Mas esse negócio de Jesus rimar bobamente com 'cruz' ou 'luz', confesso que tenho achado um tanto quanto irritante.

Bastaria consultar um dicionário para o compositor ou poeta enriquecer consideravelmente o leque de possibilidades de rimas neste caso específico (ou em qualquer outro, de passagem se diga).

O repertório do Aulete Digital apresenta, para verbos terminados em “*uzir”, nada menos que os 36 seguintes:

abduzir aduzir aluzir entreduzir auriluzir coproduzir conduzir contraproduzir deduzir desluzir duzir eduzir entreluzir estreluzir induzir introduzir luciluzir luziluzir luzir noctiluzir nuzir preluzir produzir reconduzir reduzir reintroduzir reluzir reproduzir retraduzir seduzir sobreluzir teleconduzir traduzir transluzir trasluzir e tremeluzir.

Basta colocar qualquer um deles na terceira pessoa do singular do presente do indicativo, e podemos dizer sem susto que algo ou alguém respectivamente:

abduz aduz aluz entreduz auriluz coproduz conduz contraproduz deduz desluz duz eduz entreluz estreluz induz introduz luciluz luziluz luz noctiluz nuz preluz produz reconduz reduz reintroduz reluz reproduz retraduz seduz sobreluz teleconduz traduz transluz trasluz e tremeluz.

Com a busca “*por”, encontramos instantaneamente mais 44 verbos da mesma família, a saber:

antepor antrepor apor circumpor compor contrapor contrapropor decompor depor descompor desapor descompor desimpor despor dispor entrepor estrapor expor extrapor impor indispor interpor justapor opor pospor predispor propor pressupor propor recompor reimpor repor repropor redispor sobpor sobrepor sopor sotopor subpor superpor supor transpor traspor e trespor

A primeira pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo, é, respectivamente, eu:

antepus antrepus apus circumpus compus contrapus contrapropus decompus depus descompus desapus descompus desimpus despus dispus entrepus estrapus expus extrapus impus indispus interpus justapus opus pospus predispus propus pressupus propus recompus reimpus repus repropus redispus sobpus sobrepus sopus sotopus subpus superpus supus transpus traspus e trespus.

Nada menos que oitenta opções de rima para Jesus, só até aqui.

Algumas palavras terminam em “*uz”. É o caso de capuz, mastruz, truz, e vários etcéteras. Elas são invariavelmente oxítonas, e rimam com Jesus, também.

Outras, muitas outras, terminam em “*us”. Neste caso é só catar da lista as oxítonas. É fácil. Se estiverem grafadas corretamente no dicionário (nem sempre é o caso, advirta-se), elas seriam as que aparecem sem acento. Algumas, ou mesmo várias, podem servir pra rimar com Jesus.

E ainda temos todas as palavras oxítonas da língua portuguesa terminadas em “*u”. O referido dicionário que utilizei não oferece a lista por ser longa demais. Cabe então buscar e quiçá listar. Claro que só interessariam as que comportassem plural e fossem adequadas semanticamente. Ainda assim seriam, de fato, muitas.

Compor um bom verso rimando Jesus com, por exemplo, arcabuz, perus, pus (substantivo), urubus ou qualquer coisa do gênero exige um talento que eu simplesmente não tenho e por isso mesmo nunca me dispus a sequer tentar. No entanto, estou convencido de que quem desse os devidos tratos à bola conseguiria, sim.

O que quero dizer com tudo isso é que não existe a menor necessidade de rimar Jesus tão banal, previsível quase invariavelmente com 'cruz' ou 'luz'. Esta rima já está pra lá de desgastada.

Bem, a idade me vem chegando. Não é de se esperar que minha ranzinice melhore. Mas se pelo menos estas canções melhorarem...

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Palavras

Nas palavras de cada língua, a alma de um povo pelo menos, o que fala esta língua.

Isto porque há línguas faladas por mais de um povo (por exemplo, o inglês, o espanhol, o nosso português e várias outras), assim como há povos falantes de mais que uma língua (por exemplo, os canadenses, os suíços e alguns outros).

Cada língua é formada de "células", por assim dizer. São suas unidades constitutivas a que chamamos palavras.

Ora, definir (ou mesmo distinguir) o que é uma palavra não é tão fácil quanto talvez pareça.

Experimente contar as palavras de um texto qualquer escrito num idioma que lhe seja completamente incompreensível. Você naturalmente contará as unidades gráficas que estiverem limitadas por espaços, como faz qualquer editor de texto eletrônico. Obterá desta forma um determinado resultado numérico, que acreditará correto. Mas dificilmente esta contagem estará correta.

Digamos que o idioma ininteligível para você fosse o alemão. Você na certa contaria como duas palavras cada verbo "trennenbar". Isto porque a parte de base de tais verbos alemães aparece antes, em geral bem antes de um característico prefixo separável, que vai geralmente lá para o final da sentença. Assim, o verbo que figura nos dicionários como "aufstellen" pode (e costuma) aparecer nos textos como "stellen ... auf". O verbo "aufmachen" como "machen ... auf". Por outro lado, o idioma alemão permite a formação de compostos longos. Pode-se dizer com um só desses "palavrões" teutônicos algo como "a maçaneta da gaveta da mesa do gabinete do ministro de estado das relações exteriores" ou qualquer esquisitice congênere. Isto naturalmente seria contado como uma palavra só, pela aparência. A contagem feita apenas pelos elementos radicais demarcadas por espaços acabaria por refletir um número completamente falso, e bem discrepante do número real de palavras.

Existem coisa de seis mil línguas no mundo, a esmagadora maioria das quais são línguas ágrafas, línguas sem sistema de escrita. Quando se trata de definir ou identificar o que é ou o que não é uma palavra, não é de se admirar que a coisa se complique até o limite do acreditável.

Vemos nos dicionários aquelas unidades chamadas verbetes ou entradas que tratam de palavras isoladas, ali definidas, explicadas e exemplificadas como o que são - palavras, mesmo. Isso nos dá a impressão falsa mas muito reforçada de que as palavras isoladas existem. Na verdade não é assim. As palavras só existem em associação umas com as outras, de acordo com muitas e bem complexas regras. Mesmo quando por acaso ou convenção utilizamos uma palavra só, há um bom número de outras a ela indissociavelmente associadas naquele determinado contexto, que simplesmente ficam subentendidas. Se por convenção ou economia dissemos apenas a palavra "fogo!", quereremos dizer algo do tipo "atire agora, abra fogo!", ou então "está havendo um incêndio!"

As palavras encerram em si um enorme tesouro, por vezes bem pouco explorado. Se averiguarmos sua formação, sua origem, suas colocações, sua evolução histórica e tantos etcéteras cabíveis, veremos facilmente como elas são ricas e quantas coisas interessantes há nelas e sobre elas para se descobrir.

Estou definitivamente convencido de que se a elas nós dedicamos suficiente atenção e carinho, elas retribuem lindamente. As palavras, essa coisa meio etérea, de certa forma nos enriquecem com uma fortuna que, embora nem sempre traduzível na "outra", a fortuna atrás da qual tantos passam a vida a correr, ao menos uma fortuna intangível que não se desvaloriza nunca, que não se perde nunca e que não há quem nos possa tomar.

sábado, 8 de maio de 2010

Sábado Intelectualizado

Este sábado até que foi, além de em tudo e por tudo bastante agradável, intelectualmente produtivo.

Em muito boa companhia, fiz um passeio à Biblioteca Nacional. Incidentalmente, passamos numa farmácia e também pela impermanente feira de livros da Cinelândia.

De repente, não mais que de repente, topo numa das bancas com o Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa do Mirador Internacional, que saiu do prelo em 79, faz trinta e um anos. A qualidade e a sofisticação desta obra exerceram o mais absoluto fascínio sobre o então jovem universitário que agora escreve este blog, só que naqueles idos custava dinheiro demais. Não deu e ponto. Foi com uma indescritível nostalgia que eu quis saber o preço. Como agora estava por assim dizer "a preço de banana" (o momento atual, para usar um eufemismo, financeiramente ainda não é lá dos mais confortáveis), comprei. Desatualizado em parte, sei que este dicionário, pelo que é, ainda me prestará serviços muito relevantes, bem como a alguns dos com quem convivo. Pelo menos assim espero.

Os dois volumes na hora pareciam pesar coisa de uns dez quilos. Pasavam na verdade só cinco, como mais tarde eu soube por balança. Errara longe em meu palpite, como aliás costumo, com esse tipo de coisa. Feliz da vida, finalmente os tenho, mesmo com três décadas e bico de atraso. Também, quem mandou eu ainda não ter ficado rico?

Tocamos então a pé pra BN, ali pertinho. Na seção de periódicos do andar térreo, onde também ficam as obras de referência, folheamos e lemos um pouco das maravilhas lexicográficas que ali nos aguardavam. O magistral Diccionario de Uso del Español de Maria Molíner foi a vedete da visita. Detivemo-nos em alguns de seus verbetes. Que inspiradores!

Na Internet, descobri meio que por acaso uma tese de doutoramento lusitana sobre lexicografia. Li quinze das quase quinhentas páginas em PDF e resolvi blogar um 'cadinho'. O resto não tem pressa.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Procuras

A língua tem lá seus caprichos.

Toda e qualquer língua os tem, na verdade muitos.

Um exemplo bastante simplificado em português, só para ilustrar: A ideia adjetiva genérica de "referente a dentes", pode ser expressa, indiferentemente, como

a) dental,

b) dentário/a ou

c) de dentes.

Ora, a, b e c são equivalentes, do ponto de vista semântico. Poderiam ser intercambiáveis, na imensa maioria dos casos. Mas não o são, mesmo. O emprego de um termo ocorre com exclusão dos outros, conforme o substantivo.

Assim, com creme ou fio, por exemplo, preferimos a) dental;
com escova, dor e pasta a preferência recai sobre c) de dentes.
Já para arcada, prótese ou tratamento vamos usar b) dentário.

A coisa certamente vai bem mais longe. E se trabalharmos entre línguas, então...

Por exemplo, atenção é coisa que se presta em português, mas em francês se faz e em inglês se paga, por assim dizer ( prestar atenção = faire attention = to pay attention ).

Porque as línguas são diferentes entre si e têm cada qual seus caprichos peculiares, não há correspondência exata entre as palavras de uma língua e seus equivalentes em outra, menos ainda entre arranjos de palavras de significado correspondente.

O que faz com que uma língua caprichosamente aceite uma determinada palavra ou expressão em determinadas circunstâncias, mas rejeite outra palavra ou expressão equivalente é algo intrigante.

O mesmo se dá nas outras articulações da língua.

No nível morfológico, afixos aceitáveis para determinados radicais não o são para outros perfeitamente aptos a recebê-los. Por exemplo, -udo é um sufixo que contém a ideia de algo relativamente grande, maior do que o normal, tanto em português como em espanhol. Cabeçudo, olhudo, narigudo, barrigudo, barbudo, cabeludo, etc., são corriqueiros para nós. Mas consciençudo não é. Entretanto, em espanhol se diz tranquilamente conscienzudo.

Quem encontrar uma resposta satisfatória e definitiva, terá dado um contributo relevante simultaneamente à linguística, à lexicografia, à tradução, ao ensino de línguas, bem como a várias outras áreas do conhecimento. Mas não é fácil não. Pessoalmente, venho procurando isto há muito tempo, e só sei que nunca cheguei nem perto de encontrar.

A quem também quiser entrar nessa busca, boa sorte.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Rua Cordura

Quem conhece o município de Mesquita, Baixada Fluminense, deve saber da existência duma rua chamada Cordura. Acho cordura uma palavra bonita, sonorosa. Seus significados básicos de prudência, disposição amistosa e cordialidade embelezam-na mais ainda. Tipo de palavra que em tudo e por tudo se qualificaria para entrar numa lista lexicoterápica.

Mas a gente de lá realmente não é muito de consultar dicionários. Aparentemente, desconhecem a palavra. Fazem então o que costumam fazer com palavras estranhas, insólitas ou 'difíceis', ainda que muito bonitas. Desconsiderando a inequívoca inicial C nas (poucas) placas [e onde mais o nome apareça "oficialmente" ortografado], como se se tratasse de algum erro, substituem-na automaticamente por um G, e com isso a transformam na palavra usual mais próxima. Não só dizem como também escrevem Gordura, oficiosamente. Li num ônibus: "Passa na Rua Gordura". Com G, mesmo. Rebatizaram a tal rua, na prática.

O fenômeno nada tem de raro nem local. Ao contrário, ocorre no mundo inteiro. Só para dar um exemplo em inglês, "asparagus" (aspargo, pra nós) acabou sendo também conhecido informalmente como "sparrow grass", numa óbvia facilitação a um só tempo prosódica e etimológica. É a chamada etimologia popular, criativa e criadora de um sem número de expressões como "cuspido e escarrado" (de 'esculpido em Carrara'), "mal e porcamente" (de 'mal e parcamente'), e tome de etc.

De início, considera-se qualquer forma assim transformada como incorreta, um desvio da norma, uma corruptela, algo a se evitar. Só que muita vez a nova forma se consagra, ao ponto de ganhar abonação em dicionários. Foi aliás desse jeito que se formaram, a longo prazo, todas as línguas descententes em linha direta do velho e defunto latim, como o francês, o espanhol, o italiano, nosso vernáculo etc.

Quando criança, ouvi muito a forma "bêbado" ser corrigida. O certo à época era "bêbedo". Só que neste caso a forma "correta" com o tempo foi perdendo força e a "errada" se impôs, pelo uso. Caso pra lá de corriqueiro.

Manuel Bandeira comenta o nome do rio Capibaribe. Lembra ele que um velho professor seu fazia uma questão danada da forma correta, Capiberibe, embora o povo por qualquer razão já privilegiasse disparado a outra, com a. Trata-se da mesmíssima oposição bêbado x bêbedo, com o mesmo resultado final, inclusive.

Existem leis fonéticas, muitas delas, por trás dessas transformações por que formas léxicas normalmente passam na evolução histórica de qualquer língua.

Palavras como aipim, engajar, mortadela, mendigo, e muitas outras sofrem nasalização, uma transformação de frequência bem alta (virando, no caso, aimpim, enganjar, mortandela, mendingo, etc.).

Igualmente comum é a transposição de certos encontros consonantais como os de pedra, estupro, vidro, etc. (dando preda, estrupo, vrido, etc.).

É nessa base também que, por exemplo, aviso ‘prévio’ vira aviso ‘breve’ e o ralo ‘sifonado’ vira ralo ‘sanfonado’ juntamente com grande número de casos análogos.

A formação de alguns compostos populares é muito expressiva, geralmente também humorística, como em analfaburro, apertamento, batatalhau, contrachoque, crionças, irmãe, mergulho (não parece um composto, mas o segundo componente é “bagulho”), namorido, paitrocínio, robauto, televizinho(forma dicionarizada), trêbado, tricha, urubusservar e por aí vai.

Há subversões intencionais de expressões com idêntico efeito, como em ‘um abraço e um queijo’, ‘meus parachoques pra você’, ‘suáveis prestações’, etc., etc.

Nada a lamentar, se mencionada rua ficou condenada a uma indesejável obesidade sem causa, só por conta e ao gosto do povo do lugar. Para mim, pena é que, por lá, cordura não tenha “colado”.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Um Léxico Pacificador: Boa Ideia!

Tenho uma amiga virtual mais ou menos recente que compartilhou em seu blog uma experiência pedagógica.

Chamou-me a atenção o tremendo interesse lexicográfico ali implícito. A ideia, de nobre propósito, é facilmente aplicável e tem ótimos resultados a médio e longo prazo. Entendi que o custo seja bem pequenininho, ainda mais em vista de relevantes resultados no combate à violência.

A arma? Palavras. Fiquei imaginando uma profusão de dicionários especiais cujos lemários seriam criados para produzir no utente reações não violentas.

Na década de 80, tive a oportunidade de traduzir do italiano as atas do oitavo congresso mundial de musicoterapia, que acabara então de realizar-se na Itália, por solicitação de uma editora. Acabei nem sabendo se esta tradução foi ou não publicada.

Então, a música tem suas propriedades curativas reconhecidas pela medicina, que inclusive a vem prescrevendo não é de hoje como remédio, um remédio como qualquer outro, como qualquer fármaco à disposição de quem sofre seja lá do que for.

O que é que está faltando então para que pessoas devidamente qualificadas e investidas de autoridade encarem com igual seriedade esse tremendo potencial que há nas palavras e está praticamente inaproveitado como recurso no desesperadamente necessário combate a todas as formas e manifestações da violência? Ou para que a própria experiência da Graça se multiplique por quantos dela tiverem conhecimento e a desejem reproduzir no âmbito educativo bem como em vários outros?

Quantos maridos ainda não descobriram quanta coisa pra lá de óbvia dá pra fazer com suas respectivas mulheres e que é incomparavelmente melhor em qualquer sentido inclusive pra eles mesmos do que bater nelas? Quantos filhos inclusive pequenos estão agora vivendo sob um clima de terror justamente em casa, onde se espera eles tenham amor, carinho, e proteção? E não é só a violência doméstica. Tem a urbana, que vem escalando a níveis dificilmente suportáveis para os cidadãos de boa paz. Em resumo, há violência demais por aí, sim. Todos nós sabemos muito bem disso e muitos de nós realmente queremos que assim não seja. Estamos dispostos a fazer o que for possível? A partir do momento que todos responderem sinceramente sim, isto quererá dizer em termos práticos que foi a violência que perdeu. Boa música, boa conduta, uma boa disposição, boas palavras, vale qualquer coisa desde que funcione, certo?

Se a divulgação da experiência singela e bem sucedida da minha amiga Graça puder servir de referência e inspiração para muitas mais outras iniciativas neste sentido, é de se acreditar que ainda chegaremos a resultados realmente satisfatórios em ponto graudo, algum dia. Faço então a minha parte redirecionando meus leitores ao blog Os Botões de Madrepérola. Nada custa visitar o referido blog e ler o post de que falo em

http://botoesmadreperola.blogspot.com/2009/10/nao-violencia-meu-recado-possui-um-teor.html

Quero ver as palavras cumprirem mais este destino, para o bem das gerações que nos sucederão.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Le Littré, uma Obra de Mestre

Um endereço que quem lida de alguma forma com o idioma francês não deve desconhecer é

http://francois.gannaz.free.fr/Littre/accueil

Nada menos que Le Littré. Que dicionário grandioso!

Esta antiga maravilha lexicográfica já prestou muitos e relevantes serviços a diversas gerações de utentes, mas nem todo esse tempo transcorrido desde sua confecção transformou-a em mera curiosidade histórica sem qualquer outra serventia. Ele ainda hoje serve (e como!) para nele aprendermos coisas perfeitamente válidas sobre o bom uso de palavras e fraseologia em idioma francês. Ainda podemos nos fiar no que diz para definir palavras, principalmente as mais importantes.

A obra original aqui apresentada já se acha há bom tempo em domínio público, portanto não está atualizada. Mas vale a pena realmente conhecer e servir-se dela, ainda. Inclusive como modelo ou exemplo. Esta versão ressente-se naturalmente, como aliás a quase totalidade do que se acha disponível em versão virtual, da indesejável presença de erros de digitação, em quantidade bem maior que na obra impressa. Consta inclusive uma advertência neste sentido na apresentação da versão virtual. Mas nada enfim que chegue a comprometer seriamente seu incrivelmente rico conteúdo.

Para dar só um exemplo, logo no início do verbete exocet, podemos ler o seguinte, sic:

"Genre de poissons malacoptérygiens abdominaux, pourvus. de grandes nageoires pectorales qui leur permettent de ... "

O ponto depois de ‘pourvus’ é evidentemente intruso, mas pelo menos a palavra seguinte tem inicial minúscula, como se o tal ponto não estivesse nem ali. O diabo é que está, merde!

Pressa na digitação e cochilo na revisão, claro, mas pelo menos neste caso sem qualquer prejuízo ao consulente fora, convenhamos, um pouco de afeiamento. Logo numa obra de tantos méritos! Fazer o quê?

Pelo rigor na seleção das palavras e dos exemplos, pela clareza, concisão e objetividade nas definições, pelos critérios rigorosos na apresentação, enfim praticamente em tudo e por tudo, o Littré ainda supera muitos dos dicionários atuais.

Após o título a cada entrada, vem sempre a classificação gramatical da palavra acompanhada quase invariavelmente de alguma informação sucinta porém relevante sobre seu uso como tal, que pode ser algum detalhe sobre a pronúncia (à época do autor, o alfabeto da Associação Fonética Internacional ainda nem sonhava de ser inventado, mas a figuração de pronúncia que ele utiliza é muito boa, e realmente orienta o consulente onde cabe fazê-lo), ou então sobre a da flexão da palavra, ou ainda qualquer outra informação congênere que o termo francês peça. Podemos com segurança atribuir à regra mais geral todo e qualquer caso onde nenhuma destas informações estiverem presentes. Requinte como este só mesmo um dicionário excelente pode oferecer.

As definições são de regra bastante precisas. Aplicada a tal regrinha da substituição, veremos que sempre funciona, uma beleza. A cada acepção registrada, farta exemplificação de bom emprego da mesma, extraída em geral da obra de autores pra lá de consagrados.

No final, uma seção etimológica. Não custa termos boa vontade aí, já que com o que se sabia neste campo nos tempos de Littré, ele realmente fez o que dava e com indiscutível competência, seriedade, responsabilidade. Até onde não acertava em cheio logo de saída, ele levantava muito bem fundadas hipóteses com base naquilo de que dispunha. Quanto a etimologias, portanto, fora a ressalva de que sempre convém averiguar o que consta nas melhores fontes atuais, a obra ainda presta serviços, já que muito do que registra ainda não foi contestado.

O Littré não é, claro, uma obra definitiva para etimologias. Já mereceu innclusive diversas revisões à luz de novos estudos, o que aliás também vale para todos os dicionários posteriores, no que consignam.

Obsolescer como obra de consulta é só uma questão de tempo para qualquer dicionário, só que quando isto fatalmente acontecer aos melhores dicionários atuais, o Littré ainda existirá pelo menos na condição de uma respeitável referência.

Somente à guisa de comparação, hoje em dia ainda existe quem execute, quem ouça a obra de compositores como Bach, Beethoven, Mozart e alguns outros, bem como quem para estudá-las sobre elas se debruce por anos, décadas não existe? E pelo que estas obras são, só se pode esperar que seus apreciadores continuem sempre existindo.

Justamente como estas obras estão para a música, está o Littré para a lexicografia, sem qualquer hipérbole.

domingo, 21 de junho de 2009

Avalie Seus Dicionários

Claro que no post de hoje não vou apresentar todos os critérios de que um avaliador de dicionários precisa. Entraríamos fatalmente (este é o termo) num cipoal de minudências de pouco interesse para quem só vai, por exemplo, comprar ou usar determinado produto e deseja escolher um que lhe sirva satisfatoriamente. Não obstante, umas poucas considerações talvez lhe sejam de serventia numa hora destas.
Nessa crença, então, vamos lá.

A quantidade de dicionários (físicos, eletrônicos ou virtuais) existentes hoje em dia no mercado é assombrosa. Não admira que em meio a tal abundância de opções facilmente encontremos produtos que com o uso intensivo se revelem francamente insatisfatórios. Só para ilustrar, a ATA (American Translators Association) realizou há tempo uma pesquisa exaustiva, onde ouviu tradutores de costa a costa no país, e em resumo chegou-se à conclusão de que estes profissionais que utilizam dicionários técnicos exaustivamente tinham principalmente as seguintes queixas: a) inexatidão (inaccuracy), b) lastro (ballast) e c) omissão (omission).

A primeira queixa, inexatidão, diz respeito ao fato de o consulente ser mal orientado em dicionários por registros imprecisos que frequentemente o levam a cometer erros pelo menos lamentáveis, quando não de consequências desastrosas. Fiando-se no que encontra num dicionário técnico, ele traduz de conforme com o que consultou e ... erra. Isto infelizmente é muito mais corriqueiro do que se imagina, e no fim das contas vem em prejuízo da qualidade das traduções. Seria altamente desejável que os dicionários, principalmente os especializados, fossem muito mais precisos em suas definições e nas correspondências terminológicas entre idiomas.

A queixa do lastro refere-se à irritante presença de verbetes desnecessários que dão volume, sim, mas não peso à obra referencial. É o que aqui apelidamos de "encher linguiça". São muitos os lexicógrafos adotam indiscriminadamente esta prática abominável.

Omissão é a terceira frustração mais comum do consulente, que depois de encontrar definições imprecisas que induzem a erros e vários verbetes praticamente inúteis, descobre espumando de raiva que justamente aquele termo que com razoáveis motivos esperava encontrar naquele dicionário ... simplesmente não consta.

Então, as queixas mais frequentes de todo um conjunto de consulentes muito intensivos de dicionários nos ensina algo a buscar num bom dicionário. Um dicionário ideal seria preciso e claro em todas as suas definições, omitiria todas os dados irrelevantes ou não pertinentes e traria mesmo todos os termos que provavelmente levassem um consulente a abri-lo.

Não é difícil colocar estas características à prova no(s) dicionário(s) de que você costumeiramente se serve.

O melhor teste prático para você formar rapidamente alguma ideia sobre a qualidade das definições do seu dicionário é bem simples. Consiste em apenas substituir o termo definido em seu contexto pela própria definição que o dicionário apresenta. Se a definição "não encaixar" no lugar do termo a que se refere, já se tem claro indício de má definição. A boa definição, e só a boa, sempre equivale perfeitamente ao próprio termo definido. Não há que errar. Fácil, não?

Ah, e não só as definições em qualquer dicionário devem passar no teste da substituição. As equivalências também. Um termo apresentado em dicionário como sinônimo de outro tem o dever de poder substitui-lo no contexto pertinente. Mas haveria tantas ressalvas e considerações a fazer aqui, que neste caso direi somente que o teste da substituição simples não funcionará sempre, como deve no das definições.

"Forte", por exemplo, é um adjetivo que quando aplicado a café naturalmente não aceitará os sinônimos dicionarizados. "Mole" é antônimo de "duro", mas a expressão "dar mole" não é antônima de "dar duro", ou "estar duro" (sem dinehiro) não é o antônimo de "estar mole". Cuidado, então.

domingo, 31 de maio de 2009

Então, aos dicionários!

O primeiro dicionário que comentaremos aqui é o Aulete em sua versão eletrônica.

Minha parceira e colaboradora do "En Français Aussi" tem em seu computador (de onde agora improviso este post) uma versão baixada. Examinamo-la rapidamente.

Secar Já encontramo-lo ao abrir o dicionário, e sua leitura nos proporcionou a agradável sensação de contarmos com um produto lexicográfico de confiança, reputado e todos os etcéteras que cabem para um dicionário pra lá de consagrado: um Aulete.

Para simples contraste, fomos logo ao verbete dar, que no Aurélio (de papel) tem pra mais de cem acepções. Ali, encontramos só 34, além de um punhadinho de expressões contendo o verbo dar (acompanhado de qualquer coisa), em separado. É pouco, claro, mas o verbete é bom, no pouco que traz. Salvo certos descuidos de digitação (que não deveriam ser tolerados numa obra de referência que se preze), como em:
dar...
" 29 Exalar (cheiro bom ou mão) [td.: Essa trepadeira dá um cheiro maravilhoso.]" (negrito nosso).
Evidentemente, a palavra "mão" neste verbete é intrusa e só pode ter-se formado de um erro de digitação, explicável pela proximidade das teclas 'm' e 'n' em teclados comuns, mas aqui inadmissível. São erros gritantes (embora nem sempre tão óbvios), que se vierem em profusão podem conspurcar a reputação até mesmo de um Caldas Aulete.

Fomos ainda a outro, sugerido por minha companheira desta viagem lexicográfica. Aí, a primeira grande surpresa. O verbete "saber".
Sua apresentação parece descredenciar totalmente nossa versão digital do Aulete. Apresenta inicialmente quatro acepções para o substantivo masculino (uma das quais eu não sabia, trata-se de regionalismo do Rio de Janeiro, talvez de limitada circulação ou em desuso).
Depois, uma sequência de expressões contendo a palavra "saber". Logo na terceira, a chocante " Não sabera quantas anda ". (negrito nosso) Falta um espaço, num erro óbvio da digitação, culminado numa óbvia negligência da revisão, que nos legou esta forma que - convenhamos - não pode depor favoravelmente ao produto, afinal de contas um Aulete, né?

Para encerrar, no verbete conforme apresentado não aparece nenhuma das tantas acepções do verbo saber. Um verbete estropiado em cujo canto superior direito se lê "verb. atualizado". Quase saio dele totalmente decepcionado com o Aulete eletrônico, mas ainda ocorre-me clicar sobre estes suspeitos dizeres. Faço-o e, felizmente, a área é sensível. O clique me conduz ao verbete original. Meno male, depois desse indigesto porre de erros e desse susto com a integridade da meritória obra referencial.

E lá está todo o verbete "saber". Muito bom, inclusive. Agora, é uma versão em que o Aulete se reconhece. Só me ressinto de o plano gráfico acompanhar o das edições em papel. Aqui, não haveria qualquer necessidade de economizar tanto o espaço físico. As diferençadas consignações mereceriam mais cortesia(*) espacial para facilitar a leitura. E chega de me queixar de coisa boa. É o Aulete, sim, com as devidas ressalvas.

O dicionário Aulete digital está no URL http://www.auletedigital.com.br/download.html
Para quem faz questão de um bom produto lexicográfico, e ainda por cima baixável gratuitamente, ei-lo. Boas consultas.

Uma palavrinha final. Este post dá início a uma série em que tratarei de assuntos mais diretamente lexicográficos. Comentaremos, por exemplo, diversos dicionários e demais obras de referência físicas ou em versão eletrônica.

Este post, quando ainda era apenas um rascunho eletrônico, passou pelo crivo da leitura atenta de minha mencionada parceira, sem o que correria o risco de ser publicado mesmo eivado de erros de digitação meus, contra os quais me insurjo quando encontro em obras de referência.

(*) Cortesia é um termo especializado da lexicografia prática. Significa o espaço deixado em branco no início e no final de uma seção de obra (dicionário, enciclopédia e quejandos). Consulte José Sosa, Lexicografía Práctica, Gredos (se não me engano). Espanha. Não lembro ano nem mais nada.

domingo, 17 de maio de 2009

Prolepses no Lexicografia

Pretendo dar início a uma série de artiguinhos onde procurarei argumentar sobre a utilidade de se adquirir um bom vocabulário antes de sugerir técnicas e estratégias para atingir tal objetivo, quem sabe até algum workshop.

Para quem já tem um vocabulário vasto haurido, por exemplo, em dezenas de milhares de horas de leitura, ou para quem já está se mobilizando de alguma forma no sentido de enriquecer o seu, pode muito bem ser que tudo soe desnecessário, como um chover no molhado.

Já para quem predescarta a possibilidade de incluir leitura intensiva em sua vida e/ou não compreende para que diabos serve ter um vocabulário rico ou mais rico, o provável é que tudo o que eu venha a dizer neste sentido resulte inútil, como murro em ponta de faca.

Vou esforçar-me então para nem chover no molhado nem esmurrar pontas de faca, presumindo que ainda haverá leitores para quem digo algo que mereça ouvidos e quiçá providências.

Num blog concebido para dialogarmos sobre palavras permito-me um pouco o uso de palavras "difíceis". Acho bem mais acertado interpretá-las como um incentivo prático, objetivo e oportuno a que os leitores consultem seus próprios dicionários do que presumir por exemplo que eu esteja me mostrando deliberadamente pedante, falando empolado, ou sendo gratuitamente incompreensível. Eis minha primeira prolepse.

Argumentarei ainda (aqui como alhures) pela leitura de dicionários, que sempre recomendarei. Só pessoas de muito alto nível intelectual sabem o que é um dicionário? Só pessoas de muito alto nível intelectual entendem que dicionário é livro? Só pessoas de muito alto nível intelectual concluem que qualquer livro se lê? Só pessoas de muito alto nível intelectual alcançam o conceito de que livro também é coisa que se escreve? Estou definitivamente convencido de que não, apesar de sabe Deus quantos poréns.

Então voltarei sempre à vaca fria: passei a vida inteira fazendo isso (de ler dicionários) e não me arrependo mesmo. Posso (e quero) testemunhar aqui de todos os benefícios - ainda que intangíveis - que certos bons hábitos garantidamente trazem, principalmente a médio e longo prazo. Antes que a vaca enlouqueça e vá pro brejo.

sábado, 18 de abril de 2009

Coprologia à Parte

[Segue extrato do que escrevi alhures após me censurarem a palavra merda]

Para os que porventura não saibam e nem sequer desconfiem, mas queiram saber e não tenham tanta raiva (ai de mim, erudito de merda!) de quem sabe, minha impublicável palavra procede do latim. Procedência suficientemente atestada em fontes bastante seguras e confiáveis. Era originalmente “merda, merdae”, um bom substantivo feminino de primeira declinação, na língua dos romanos da antiguidade clássica. Chegou-nos pelo acusativo singular “merdam”, o que também aconteceu com a esmagadora maioria dos nossos substantivos provindos do latim. (1)


Natural que “merda, merdae” não fosse, nem sequer no latim vulgar, que dirá no latim clássico, um termo dos mais prestigiosos. Nunca o encontrei nos modelares Cícero ou Virgílio (cujas respectivas "obras", também, não cheguei a ler integralmente, muito menos atrás de “merda, merdae” logo ali, só pra poder agora, a essa altura do campeonato, oferecer-lhes qualquer garantia que seja a esse respeito), mas posso dar-lhes certeza de já ter visto “merda, merdae” em autores de grande credibilidade. Só que isso foi lá naqueles bons(?) tempos de faculdade, tempos em que eu lia latim vorazmente, a ponto de saber conjugar e declinar tudo bem direitinho, com a quela porrada de exceções e tudo, ter um puta dum vocabulário que incluía, por exemplo “matella, matellae” (2), Significa penico, coisa que saber, pode apostar uma boa aposta, não era pra quem lê pouco, não.

Em francês, indiscutivelmente uma das mais antigas e também mais cultas flores do Lácio, além de muito bela, é “merde” que se diz. Trata-se aí de um monossílabo, e este monossílabo muito curiosamente é bom, muito bom francês. Há peculiaridades deveras interessantes e "aos quilos" a comentar sobre o curioso termo francês, esse “merde”. Os franceses (que conforme bem sabemos são ótimos perfumistas há sei lá quantos séculos, que têm uma longa e mundialmente afamada tradição culinária, que praticamente ditaram a moda pro mundo inteiro por muito tempo e que conseqüentemente são com toda a justiça considerados como um povo do mais refinado e extremado bom gosto, a despeito das nada raras exceções de hoje em dia) não poderiam jamais ignorar solene e historicamente palavra tão expressiva e tão útil da língua que deu origem à sua, e por assim dizer “andar” pra ela, como puderam, quiseram e souberam fazer os imemorialmente fleumáticos ingleses.

Nem poderiam concebivelmente os franceses deixar de transformar a quase vulgar e rude “merda, merdae” dos velhos, cultos e grossos romanos em sua simpática, bem dizer prestigiosa e quase bem-cheirosa “merde”, palavra não só perfeitamente aceitável, presente em todos os bons dicionários, logo achadiça também na “obra” dos mais reputados literatos que a França já deu. Como bem se sabe, estes literatos sempre constituíram a principal fonte da maravilhosa lexicografia tradicional francesa.

Além do óbvio sentido etimo-(escato/copro)-lógico, o termo acumulou, com o tempo, diversos outros. Por exemplo, “traîner quelqu’um dans la merde” significa ridicularizar alguém. E quem melhor do que os franceses pra fazer isso? Um ser desprezível qualquer, animado ou não, é “une merde”, ou “de la merde”.

Como exclamação, “merde!” pode sugerir raiva, impaciência, desprezo, assim como uma pá de outras coisas. Trata-se, aqui, de uso bem mais expressivo, bem mais corriqueiro e bem mais aceitável que o que se deu com nosso correspondente uso de "merda", termo ante o qual (até certo ponto compreensivelmente) são muitos, entre nós, os que torcem o nariz.

Crotte” é um dos nem tão poucos sinônimos populares de “merde” em nosso correlato sentido de merda como sinônimo de bosta, caca, cocô, maomé (3)

Mas então, em francês, a palavra “merde” deu foi crias. Adjetivos como “merdeux” (feminino “merdeuse”), “merdant” (feminino “merdante”), “merdique” (adjetivo comum aos dois gêneros); os substantivos “merdier”, “emmerdement”; o verbo “merdoyer” são apenas uns poucos exemplos do que existe de derivados tirados a fórceps dessa minha memória de "merde", só para ilustrar. Tem é bem mais. Atestam todos eles, em seu conjunto, que a palavra “merde” lá na França goza de incontestável prestígio. Tal afortunada prole de derivados não é pra qualquer uma, não. Lá, como bem sabemos, tradicionalmente (inclusive até hoje, acho) se diz “Merde! Merde!” como uma forma de apreciação coletiva em espetáculos públicos, correspondente ao “Bis!, Bis!” que nós lusófonos dizemos em situação idêntica.

As palavras viajaram, pois, desde o velho e defunto latim até suas filhas relativamente jovens e todas ainda vivas através de caminhos incrivelmente complexos, é bem verdade, mas de modo algum caminhos imprevisíveis, aleatórios, por assim dizer. Tais percursos permitiram o estabelecimento de determinadas analogias, conhecidas entre os estudiosos dessas coisas como “leis fonéticas”.

Tentarei dar um exemplo do que seja isso pra meus leitores que, caso não saibam mas queiram saber (e não me detestem muito porque eu saiba), buscando um paralelo bem fácil entre nosso vernáculo e seu irmão gêmeo univitelino, o espanhol.

Muito que bem. O mesmíssimo termo original latino aqui omitido, (primeiro porque completamente desnecessário para os fins nada acadêmicos do presente post experimental, segundo porque o assunto já pode estar meio saco-enchente e cheirando a uma aula de merda (ou a merda, mesmo?) pra alguns dos meus talvez já bocejentos leitores que até aqui tiveram a generosidade de me acompanhar, e “last but not least at all” porque estou improvisando, e posso de repente não me lembrar mais ou inclusive não saber mesmo o “esperma” do termo exato em latim, o que afinal seria um quinguecongueano mico pra minha erudição, ainda que de merda) percorreu aquelas tais trilhas incrivelmente complexas mas repletas de pontos de répérage seguros, e acabou dando, por exemplo, cá no nosso luso vernáculo em “perto”, e lá no espanhol deles deu em “pierto”. O mesmíssimo latim que deu cá pra nós “sempre”, lá pra eles deu “siempre”. O mesmíssimo latim que deu cá pra nós “tempo”, lá pra eles deu “tiempo”. O mesmíssimo latim que deu cá pra nós “vento”, lá pra eles deu “viento”. O mesmíssimo latim que deu cá pra nós “medo”, lá pra eles deu “miedo”. O mesmíssimo latim que deu cá pra nós “certo, certa”, lá pra eles deu “cierto, cierta”. O mesmíssimo latim que deu cá pra nós “aberto, aberta”, lá pra eles deu “abierto, abierta”.

Conclusão (ufa!) de todos esses meus "mesmíssimos", "cás pra nós" e "lás pra eles" de merda, acima: em nosso português (de nada não, só ameaça), geralmente encontramos um “e” tônico aberto ou fechado em diversas situações nas quais paralela, previsível e sistematicamente acharemos um “ie” também tônico, só que invariavelmente fechado em espanhol, vindos por seus respectivos caminhos históricos do mesmíssimo latim original. Coisa dessas tais leis fonéticas. Portanto, o mesmíssimo latim “merdda, merdae”, que cá pra nós acabou dando em “merda”, lá pra eles já deu foi em “mierda”, o que, segundo rigorosamente as mesmas leis fonéticas, vem a dar rigorosamente na mesma merda (ou mierda, ou merde, afinal, que merda de diferença faz isso?).

O italiano então é quem jamais poderia ficar pra trás nessa história, morando geograficamente na mesma casa em forma de bota onde antes morara o seu defunto ancestral imediato. Já pensou? Nem pensar! Eles, é claro, têm lá sua indefectível “merda”, e também “merdoso”, “merrdosamente”, “merdaio” e por aí vai.

O inglês é língua de origem e evolução histórica não-latina, mas cujo léxico contém bem mais latim do que qualquer outra coisa (lexicógrafos do inglês orçam, salvo meu equívoco ou lapso de memória, entre 57% e 64% o total de raízes latinas em seus respectivos lemários). E o vocabulário escatológico/coprológico ali é, “só pra variar”, um dos mais ricos que há. Existem lá pra eles shit, crap, fiddle, dregs, droppings, dung, manure, e por aí vai, só pra citar os poucos exemplos de pronto acudidos, sem forçar muito a merda da minha memória.

Mas para a boa “merda, merdae” dos velhos romanos, que embora com diferenciados graus de reverência todas as línguas neolatinas acolheram, eles torceram mesmo o nariz, tanto assim que em inglês não há, pelo que me consta, nem a forma “merd*” nem coisa alguma de origem latina que o valha.

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(1) O caso preferido pelo idioma inglês na hora de tomar substantivos do latim para si foi quase invariavelmente o genitivo. Um caso inclusive bem mais conveniente, por apresentar uma regularidade notavelmente maior, inclusive. Mas o inglês não é filho, e o latim não lhe adentrou, apesar da superdose, através do "código genético". A história ali foi outra. É por esta razão, a da regularidade, que é o genitivo que caracteriza as declinações (genitivo em -ae para primeira, genitivo em -i para a segunda declinação, e por aí vai até o fim, ou a quinta, como prefiram). Corresponde o genitivo àquela segunda forma convencionada já faz é séculos para se apresentar os substantivos latinos. Rosa, rosae (primeira declinação); lupus, lupi (segunda declinação); “diabo-a-quatrus”, “diabo-a-quatru” (quarta de-gozação).

(2)(agora não tenho mais certeza se era com dois eles ou com um só. Deixo por enquanto como está, depois confiro, se
a) me lembrar,
b) houver motivo ou
c) houver solicitação)

(3)(com inicial minúscula, pelo amor de Alá, pois essa gíria "maomé" circulou foi assim mesmo aqui no Brasil. Posso provar que sim, se for obrigado a fazê-lo. Alá [e todos os seus legítimos heterônimos, inclusive Tupã, só por garantia] que me livre(m) e guarde(m) de repetir aqui a quase feliniana saga do poeta Salomon Rushdie, com seus Versos Satânicos e “crappy” que quase ninguém leu, parece-me, mas que todo mundo conhece e ainda lembra e muito bem, basicamente por conta de sua sei lá até que ponto justa mas garantidamente fanática condenação à morte, pelo fato de ambos [tanto o poeta quanto seus famosos versos de merda] terem tão gravemente insultado o Islã).